Youkali e os tons de cinza

Passeando com um dos meus amigos mais queridos da vida (falo dele no último trecho deste post) sábado na feira orgânica da Barra Funda, comentava sobre  um dos últimos textos do Contardo Calligaris, que eu adorei e que muita gente viu como um soco no estômago.

Segundo o Contardo Calligaris, depressão acontece quando as pessoas não conseguem mais ver o encanto do cotidiano, aquilo que eu chamo de ver ritual onde as pessoas vêem rotina aborrecida, ver cor no dia a dia, nas pequenas coisas, porque é disso afinal, que a vida é feita: de pequenos momentos aqui e ali, e não dos momentos grandiosos, dos acontecimentos retumbantes. Estes têm sua força, nos nutrem por certo, mas é nas cores do dia a dia, é na conversa de todo santo  jantar, naquele telefone de boa noite ou pra dizer “não tive um dia bom e precisava falar com você” que as relações se constroem e a vida acontece.

Aí ele responde: ” o problema está justamente aí: não é que você não vê cor; às vezes você até vê cor, mas as únicas cores que você vê são vários tons de cinza”.

Tive que concordar. Quem nunca esteve lá no fundo do poço que atire a primeira pedra.

Inconscientemente ou não (ele sempre teve o dom de saber o que acontece comigo sem que nem mesmo eu saiba, aquela peste), depois do almoço ele me mostrou um vídeo lindo, da soprano Teresa Stratas (que eu, felizmente eterna ignorante, não conhecia), um Tango Habanera tristíssimo chamado Youkali, de Kurt Weill (o mesmo que escreveu a deliciosa Speak Low), cuja música sem a letra originariamente fazia parte de uma peça chamada Marie Galante e que merece ser visto:

 

A

A letra é linda:

C’est presqu’au bout du monde
Ma barque vagabonde
Errant au gré de l’onde
M’y conduisit un jour
L’île est toute petite
Mais la fée qui l’habite
Gentiment nous invite
À en faire le tour

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Et la vie nous entraîne
Lassante, quotidienne
Mais la pauvre âme humaine
Cherchant partout l’oubli
À, pour quitter la terre
Se trouver le mystère
Où nos rêves se terrent
En quelque Youkali

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Youkali
C’est la terre où l’on quitte tous les soucis
C’est, dans notre nuit, comme une éclaircie
L’étoile qu’on suit
C’est Youkali

Youkali
C’est le respect de tous les voeux échangés
Youkali
C’est le pays des beaux amours partagés
C’est l’espérance
Qui est au coeur de tous les humains
La délivrance
Que nous attendons tous pour demain

Youkali
C’est le pays de nos désirs
Youkali
C’est le bonheur, c’est le plaisir
Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

Mais c’est un rêve, une folie
Il n’y a pas de Youkali

(a versão em inglês, pra quem não entende francês, está aqui)

Chorei de borrar o rímel vendo o vídeo. Tá tudo misturado ali: tem mulher velha com moço moço, mulher com mulher, velhinhos, gente gorda, gente magra, todo mundo dançando feliz… Tem esperança. Tem serenidade. Tudo flui.

Mas como a letra bem diz,  isso não existe, né? Principalmente nos dias intolerantes de hoje. Youkali é só um sonho, uma loucura, não existe, nos conta a letra.

O problema é quando a gente não consegue sequer sonhar com ele. Como eu sempre digo, a pior coisa que pode acontecer a alguém é sentir desesperança, ter a plena convicção de que vai ver tudo cinza pra sempre e o pior: se conformar com isso, sequer ter forças de se revoltar com essa cinzidão toda. Ter forças somente para respirar fundo e olhar para o outro lado, colocando um sorriso no rosto quando vê que vai chorar se parar pra pensar em determinados aspectos da vida, porque se parar para pensar, vai chorar dias a fio e entrar num buraco de dar medo aos mais corajosos. Só quem já esteve (ou está) lá sabe como é isso. Não quero isso para o meu pior inimigo. Vou contar pra vocês: sorte daqueles que ainda conseguem sonhar com Youkali.

 

 

Repressão à Marcha da Maconha: matar o mensageiro não adianta

Independente de qual seja minha postura no que tange à liberação do uso da maconha no país (minhas posições estão aqui e aqui), e mesmo tendo me indignado com a forma como a Polícia Limitar reprimiu a manifestação ocorrida, há alguns pontos que devem ser ressaltados para que os fatos lastimáveis que ocorreram ontem não virem apenas mais um capítulo do FlaXFlu político que assola o país.

Sim, o Governo Estadual Paulista agiu com extremo rigor na repressão da marcha a ser realizada ontem. Sim, eu fiquei pasma, assustada com o que ocorreu (e sendo bem egoísta, ainda mais aterrorizada porque meu filho havia saído para ir ao cinema na Avenida Paulista minutos antes das bombas serem deflagradas contra os manifestantes).

No entanto, ainda que eu deteste dizer isso, o argumento da Polícia Civil é de ser levado em conta: eles estavam cumprindo ordem judicial. Sim, eu sei que há várias ordens judiciais que acabam não sendo cumpridas por parte do Governo, mas normalmente elas são de menor visibilidade do que a exarada para reprimir a manifestação de ontem.

Claro, há que se cobrar uma manifestação e justificativa do Governador do Estado, de uma vez que até onde se sabe, havia sido feito um acordo sobre a mudança de objetivos da passeata: de pedido de descriminalização do uso da maconha a passeata seria a favor da liberdade de expressão, em virtude da proibição da 1a pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

Mas além disso, creio ser fundamental também questionar o Ministério Público, órgão que possui profissionais de qualidade ímpar, funcionários estes que possuem independência funcional (e é preciso que seja assim, sob pena de seus membros sofrerem pressões para tomar esta ou aquela postura – e a despeito de tal prerrogativa da independência, essas pressões por vezes podem existir, acreditem).

Qual a função do Ministério Público? O Promotor do caso a exerceu com maestria? Esse texto responde muito bem:

“ O representante do Ministério Público está comprometido só, tão-somente, com a ordem jurídica, com o regime democrático e com os interesses indisponíveis da sociedade, definidos na Constituição e nas leis. Em momento algum, deve esse membro vergar ao peso das pressões políticas, quer sejam intra ou extra institucionais.”

Deve o representante do Ministério Público portanto, defender a lei e sua aplicação, com independência funcional, de acordo com sua consciência – mas é evidente que sua consciência (ao menos no que tange ao exercício da profissão) está condicionada ao que preconiza a lei e às formas técnicas de sua interpretação e harmonização.

Não li a peça do Promotor Marcelo Luiz Barone para saber se ele abordou de forma clara como se coadunaria o princípio da liberdade de expressão com o crime de “apologia ao crime” e similares; no entanto, a mim parece que o princípio do “onde a lei não distingue, não cabe ao julgador distinguir (ubi lexnon distinguit nec nos distinguere debemus), e a Constituição é bem clara quando menciona a liberdade de expressão:

Art. 5°, IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

Art. 5°, IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Art. 5°, XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardo do sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;

Art. 220 – A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a. informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

[…]

§2° – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Ressalte-se que, salvo engano, não há na Constituição Federal artigos mencionando crime de apologia ao crime ou incitação ao uso de drogas (e Deus sabe que essa Constituição pouco faltou para ter até receita de bolo, haja vista a imensa quantidade de artigos, alguns deles a meu ver desnecessários numa Carta Magna), mostrando que os artigos lá inculcados representam valores maiores do que as leis ordinárias, que a eles devem obedecer.

Pergunto eu: terá o Promotor de Justiça realmente defendido a lei, ou teria ele distorcido de molde a embasar, ainda que de forma pífia, suas convicções pessoais? E quanto ao Desembargador Teodomiro Cerilo Mendez Fernandez?  Terá ele exarado despacho digno de um desembargador de Justiça, aplicando a lei corretamente, ou terá colocado suas convicções pessoais à frente dela? Como são os desempenhos médios desses profissionais? Qual a média de revisão de decisões que eles têm nos Tribunais Superiores? São sempre mantidas? São reformadas em grande número? De minha parte devo dizer que fiquei um tanto quanto consternada ao descobrir que, ao que tudo indica (e tais notícias devem ser apuradas com cuidado a fim de não se ferir a honra de outrem) o N. Desembargador Teodomiro Fernandez não seria iniciante na arte de prestar desserviços à sociedade e mesmo de causar violência.

ESSAS a meu ver são as principais perguntas a ser feitas pela sociedade: porque se de um lado todos se lembram do nome do Governador, quase ninguém sabe os nomes dos reais e efetivos causadores daquela repressão medieval ocorrida ontem. Pensem nisso 😉

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Como nossos pais

 

Sim, acordei para o casamento real. Sim, queria ver as roupas e a noiva, e comentar todas aquelas coisas que meninas adoram comentar. Não, não vou entrar na parada de “monarquia é antiquada” bla bla bla. Pode até ser que seja, mas parece que não é a opinião dos britânicos, então acho que o assunto está resolvido.

De minha parte, acho que gosto desses casamentos justamente pelo que muitos detestam: a noção de continuidade e evolução, ainda que lenta.

Evolução? Sim!

 

A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim

Eu tinha 13 anos no casamento de Lady Di e Charles. Lembro bem da comoção que foi saber se ela ainda era virgem ou não (tinha 20 anos, e apesar de ser meio tarde, a maioria das minhas amigas perdeu a virgindade entre 17 e 19 anos, então não era algo totalmente fora dos padrões mais conservadores da época). Diana ainda fez o tal teste de virgindade ao qual as noivas dos futuros reis submetiam-se antigamente, do qual Kate foi dispensada 🙂

A meu ver, estão sendo injustos com a Realeza. Nos anos 30 e 40, quando a Betinha (sou íntima, tão pensando o quê?) se casou, não ser virgem no casamento não era exceção, era regra. Isso já era diferente quando Diana se casou com Charles, mas Kate Middleton já não teve que se submeter a essa bobagem toda. O casal já mora junto há 4 anos (espero que ela tenha dado umas passeadas por aí quando brigou com o Príncipe), é nítido que há cumplicidade e convívio entre ambos, enfim é uma estrutura muito diferente do casamento de Diana e Charles – que só “inovaram” dando beijo em público no casamento.

Isso talvez mostre o quanto a sociedade efetivamente mudou nesse tempo todo, desde o casamento de Elizabeth II até o de hoje, né? Não o que é corriqueiro nos grandes centros, mas o que aquela velhinha lá no fim do mundo acha normal.

Kate é uma moça moderna, que sabe o que quer. Não, não venham com a conversa de que ela queria um conto de fadas machista e conseguiu; como bem disse a Renata Correa, ela foi atrás do que queria. Deu certo, mas podia dar errado. Kate está muito mais próxima de Camilla, que ao encontrar o Príncipe Charles pela primeira vez mandou um “ minha bisavó era amante do seu bisavô, vamoaê” na lata, do que aquela sonsa com cara de sofredora, implorando compaixão, que era a Diana.

 

até o vestido dela mostra o drama, o exagero, o "olhem pra mim"

Ser independente é isso né? Fazer o que acha que deve fazer, sem precisar de anuência de ninguém. Até mesmo casar com um príncipe de véu e grinalda e sair acenando numa carruagem, por que não?

Além da evolução, temos a continuidade, mencionada no começo desse texto. Eu lembro de Charles e Diana naquele balcão, assim como vi as fotos da Betinha e de sua mãe no casamento. A Ana Paula Padrão, em narração me-do-nha do casamento, falou uma certa verdade: que por ser uma marca, a realeza tem que se reinventar para continuar a ser aclamada pelos seus súditos (e pelo mundo também). Mas essa reinvenção não vem da Casa Real propriamente dita, não é inventada em agências de publicidade, mas advém dos reflexos da sociedade que finalmente chegam até ela, conseguem ultrapassar os muros dos castelos, digamos assim.

Acho que é  isso que curto tanto: constatar as diferenças fica mais perceptível, mais nítido. É igual, mas não é. O cenário é o mesmo, alguns personagens também, mas aqui e ali vemos mudanças: a idade dos personagens mais antigos, a vinda dos novos com seus “novos” hábitos (como morar junto antes de casar :lol:).

Longe de achar uma “mesmice”, dá uma sensação de conforto : Lembro da alegria que sinto quando viajo com meus amigos e ficamos deliciados ao ver que nossos filhos são amigos entre si, crescem juntos, e o quanto eles nos mostram coisas diferentes (tanto as que trazem por experiência própria quanto o que fazem com que percebamos em nós mesmos) ao mesmo tempo em que apreendem costumes nossos. Claro que eu quero que meu filho conheça pessoas que eu nunca vi na vida, que ele frequente locais aos quais não terei acesso, que viva tudo o que tem direito, e eu mesma não sou diferente.  Mas ver aquelas cenas de nossos filhos tocar Beatles no violão com 3 gerações juntas (como ocorreu recentemente) sempre vai ser sempre o porto seguro, sempre vai ser uma espécie de referência, pra nós e pra eles.

A mim dá uma sensação boa de continuidade, dá a ideia de que, apesar de um monte de desilusões, de pedras no caminho, de noites chorando no travesseiro (ou bebendo no bar) e de todo cansaço que isso implica, ainda assim há toda uma geração esperançosa, querendo ir em frente, e que tem um pouquinho de nós ali.

É por isso que acho bonito: Mudam os costumes, muda o mundo, nós passamos por fases mais rebeldes querendo se soltar de tudo quanto é amarra mas no fim das contas, quase todos querem ver (ou dar) beijo na boca e ver um casal novo começando a vida.

Que eles sejam felizes enquanto puderem, e que tenham serenidade para enfrentar as desilusões que porventura aparecerem 😉

****

P.S. Ele pensa diferente, mas adorei o texto do @hupsel

O Perrone tá tão errado assim?

É diferente de chamar alguém carinhosamente de “Negão”. Conheço gente que fala “uau, eu curto um negão, viu?”, do mesmo jeito que eu falo que tenho uma queda por morenos e não por loiros. Mas é diferente, né? O tom de voz e o contexto. Quando você quer “mexer”, vc não é “carinhoso”.
Não, você não é obrigado a gostar de alguém só porque ele é gay. Tem muito gay que não vale nada, assim como tem muito hetero que não vale nada e assim por diante, porque há pessoas que não valem nada, em última análise.
Eu fui péssina aluna de Direito Penal, então esses conceitos de calúnia, injúria e difamação são meio confusos (e é pra quase todo mundo, tanto que eles sempre andam em trio: “fulano vai processar beltrano por ‘ calúnia, injúria e difamação’ ).

<abre parênteses explicativo> se você não costuma passear na praça da República do Twitter, saiba que o assunto de hoje foi um post de jornalista da Globo que apesar de técnicas um tanto quanto primárias de argumentação, trouxe à baila um assunto interessante <fecha parênteses explicativo>

Em resumo (e colocando legenda num texto um tanto quanto confuso): há quem ache que a indignação ao ver usado o termo “viado” como insulto não passa de privilégio que gays estariam tentando  alcançar. Uma espécie de “tratamento vip”. Será que é isso mesmo? Descubra lendo a cartilha caminho suave de técnicas argumentativas a seguir 🙂

1. do método quintasserizante de argumentar e encerrar discussões

Cada dia que passa fico mais e mais chocada com a total falta de compreensão, por parte daqueles integrantes da “mídia”, do que seja uma rede social. Mais: que redes sociais, consistem em publicação de conteúdo, na acepção pura do termo, e o teor das publicações tem efeitos jurídicos. Além disso, a total falta de compreensão do que seja se portar em um local público com elegância me deixa estupefata, confesso a vocês.

Repito isso toda santa hora, dizendo que há um código de conduta evidente a ser seguido, mas falo ao vento – volta e meia as pessoas saem por aí dizendo que sofrer consequências pelo que foi dito é “censura” (ah, essa palavra banalizada que logo logo vai perder o seu sentido cruel).

Mas quando a gente não concorda com o outro chiamos né?

Hoje o alvo foi nosso Troféu Marcelino de Carvalho do mês, que além de pérolas da compreensão do comportamento humano como a abaixo,

 

 

(e não, não adianta vir com escumbelerrê dizendo que as frases foram descontextualizadas – é só ler a sequência de tweets, né? seria mais elegante pedir desculpas)

O autor ainda conseguiu utilizar métodos quintasserizantes de encerrar discussão como o seguinte

Então… Não pode. Além de feio, de ser falta de educação, pode ser tipificado como crime (nunca sei se é calúnia, injúria ou difamação, não entendo xongas de Penal, mas acho que é injúria). Como é crime uma série de outros comportamentos socialmente aceitos que um dia deixarão de sê-lo. É crime e comportamento socialmente reprovável da mesma forma que aquele jornalista da National Geographic utilizou sim (me desculpem os que pensam o contrário) elementos chulos e quintasserizantes pra manifestar seu deagrado, o que em tese poderia vir a configurar crime. Idem para a mocinha que xingou nordestinos e para o publicitário que passou dos limites ao torcer para o seu time. Os comportamentos são idênticos, só muda a gradação.

Não pode. Ou melhor, poder pode. Só não pode reclamar que é censurado quando sofrer as consequências do ato. Ou melhor, pode também – mas as consequências continuarão ali, é bom que se saiba 🙂

Regras sociais foram criadas para tornar a convivência suportável – e normalmente, quem não suporta a ideia de ser gentil com os outros rotula regras sociais de “hipocrisia”, podem reparar.

2. breve tratado da evolução do êxtase coletivo, das relações sociais e das ofensas

Sejamos honestos: em alguns pontos,  o texto tão criticado tem razão.

O principal argumento seria o de que tanto “viado” quanto “filho da puta”, dependendo da forma como são proferidos, poderiam em tese configurar crime de calúnia-injúria-difamação e sendo assim, não haveria porque condenar “viado” e não condenar “filho da puta” – isso seria um “privilégio” que gays estariam desejando alcançar.

Outro ponto tocado naquele texto é que “viado” não seria necessariamente “gay”; seria aquele comportamento mais exagerado, que associam normalmente ao gay cliché, estereotipado, discriminado até mesmo por alguns gays: é o comportamento da “passivona”, aquele comportamento xiliquento – que, admito,  muitas pessoas têm independente da orientação sexual, mas que é comumente associado aos gays mais afeminados.

Isso tudo é verdade. É mesmo um costume chamar gente exagerada de “viado”, eu mesmo por vezes me intitulo “veada” porque sou meio exagerada e tal. Mais: é até bem comum entre gays eles se insultarem dessa forma.

O outro argumento é que “antes não era normal xingar assim e agora é”; “sempre foi assim, por que mudar agora?”.

Até aí, zuzu bem. As premissas sobre as quais ele parte estão mesmo corretas. O que tá uma quizumba danada são as conclusões, as quais além de equivocadíssimas e dissociadas das premissas, ainda dão ensejo a um discurso claro de homofóbico tentando ficar no armário com toques de pseudo-sinceridade.

No entanto, a mim parece que escapa ao nosso exemplo-de-elegância-ao-argumentar que o mundo está em evolução. Sim, não adianta reclamar: por mais que nos choquemos com as crueldades ainda hoje perpetradas, ele hoje é melhor (ao menos no meu ponto de vista) do que era há mil anos atrás.

No tempo de Roma havia luta de gladiadores, eles lutavam com feras e o imperador decidia se ele viveria ou não; tivemos a época em que as pessoas iam à praça ver enforcamentos ou queima de bruxas.

 

era assim antes, por que mudou, hein?

Hoje isso melhorou: ao invés de gladiadores, vamos ao estádio e o êxtase coletivo é alcançado xingando o time e a torcida adversária; ao invés de queimar bruxas ou apedrejar adúlteras, assiste-se ao vídeo do Barraco Sorocaba e fala-se que “fulana é uma piranha”. Ao invés de processar um homem porque este manteve relações sexuais com outro homem, alguns só tiram gays à força do armário, porque eles não têm o direito de fazer sexo com outro homem sem emitir certificado de homossexualidade. Tá melhor, vai?

 

Era assim antes, por que será que mudou, hein?

Toda evolução tem certo processo: após este processo, um belo dia mulheres saíram para trabalhar de calças compridas ou passaram a querer votar, assim como passou-se a achar a escravidão desumana.Além disso, os movimentos acima não aconteceram simultaneamente (sequer ao mesmo tempo no mundo), mas sim em consonância com a condição dessas minorias.

Até hoje, mesmo no universo GLS, é normal você ver um gay reclamar do outro falando “mas você tá uma bicha chata hoje, hein?”, do mesmo modo que muitos falam “mas que viadinho que você tá”. No entanto, isso não significa que isso seja aceitável, ou desejável. Significa que eles também têm lá seus problemas de auto-estima e se auto-insultam (a desculpa é se fortalecer pra não sofrer quando a turba os chama assim, mas eu ainda aposto na baixa-auto estima de alguns).  E essa questão de auto-estima,  baixa em boa parte de homossexuais, advém, em boa parte, de comportamentos que agora passam a ser reprimidos, comportamentos como o descrito no texto e nos seus tweets.

Pois bem: chegou portanto a hora de os gays no Brasil começarem a não achar bacana ver um tratamento que os identifica ser sinônimo de insulto. Não tão curtindo mais. Ainda bem, né? Sinal que a própria comunidade gay está mais consciente dos seus valores, dos seus direitos e, porque não dizer, de sua própria identidade.

Ao dizer que acredita que o corpo não foi feito para determinadas práticas sexuais (como se fosse a prática de determinado ato sexual que caracterizasse alguém como gay, e não o desejo sexual por pessoa do mesmo sexo), o sentido dessa frase é : “você não é normal; você é esquisito, e eu vou xingar de esquisito todo mundo, pra provocar; para que a pessoa se sinta mal como você deve se sentir”.

Well, as bees não tão mais curtindo. Estão querendo “chamar a responsabilidade para si” e se apropriar do termo “viado”, dando um novo significado a ele. Simples como isso. Gays não tão mais na pegada de servir de diversão pro Imperador lutando com as feras. Imperador e sua turma vão ter que brincar de outra coisa.

Antes, todos morriam de medo de ser rotulados como “viado”. Ninguém era “viado”. Agora finalmente algumas pessoas pararam pra pensar: opa, mas por que eu tenho que rir quando insultam alguém com um termo que é associado à minha sexualidade?  Por que isso é uma ofensa e eu tenho que fingir que não é porque é “genérico”?

“Viado” era mesmo “uma forma de mexer e só”. É a mais pura verdade. Mas era uma forma de mexer associando a insulto um determinado comportamento, fazendo com que aqueles que têm tal comportamento se sintam inferiorizados. É por isso que fica chato quando você, por um acaso, mexe com alguém que efetivamente tem esse comportamento. É por isso que ficou chato no caso do volei, e ficou chato no caso do Richarlyson. Não fica chato porque “parece ser ofensa”, fica chato porque finalmente se compreende que aquilo está sendo utilizado como uma ofensa. Fica claro que o comportamento daquela pessoa é visto como reprovável (ou anti-natural). Caso contrário, por que mexeria, né mesmo?

 

Então, do mesmo jeito que antes se podia falar “seu criolo nojento” e agora não pode mais, não é mais de bom tom xingar as pessoas de “viado”, ainda que eu compreenda a diferenciação entre “viado” e “gay” feita no texto. Porque na real, como disse o Max, a gente não tem o direito de esculhambar uma pessoa só porque ela é over. Este pode até ser um componente irritante (eu não gosto, pra ser sincera, advenha ele de gays ou de heteros – ah, não sou perfeita, né?), mas a partir do momento em que isso está ligado ao bem estar da pessoa e à auto-estima dela, é de bom tom que pessoas civilizadas, educadas e aptas ao convívio social não utilizem o termo como insulto. Simples assim.

 

Qual o limite disso? Eu não sei. Também me preocupa o limite do politicamente correto, porque sei que uma das formas de se lidar com preconceito é também expô-lo através do humor. Eu pessoalmente não entendo e não curto isso (gosto de muito pouca coisa tida como “humor”) mas sei que existe esse mecanismo. Achar o ponto de equilíbrio sempre é muito difícil, e vamos ter que achá-lo. Mas enquanto não achamos, é de bom tom que sejamos cortezes uns com os outros e que respeitemos modo de ser de cada um.

E novamente tenho que dar razão ao texto: daqui a pouco, algum juiz vai reclamar de ser chamado de “filho de puta”, e não se poderá mais fazer esse tipo de coisa. Politicamente correto demais? Alguns dirão que sim, mas a mãe dos juizes e as prostitutas certamente agradecerão. Desde quando alguém ser filho de prostituta é demérito? Aproveita então, viu? Por que já já não vai rolar 🙂

<abre parênteses> Tem um porém nessa equação toda: como disse essa semana, o ser humano tem violência dentro dele e não é bonzinho. Essa forma de extravazar impulsos, desejos e emoções xingando os outros vai ter que sair por algum outro lugar para não termos problemas sociais complicados. Resta saber qual será. Espero que encontremos um caminho. </fecha parênteses>

Voltando e pra encerrar o assunto: uma vez, perguntei ao meu filho se ele seria amigo de um colega gay que estudasse com ele. Ele respondeu: “depende, Mã. Só seria amigo dele se ele fosse legal”. Respeitar é isso. É ver a pessoa e ver se aquele conjunto específico agrada ou não,  ao invés de decidir se vai gostar dela ou não porque ele faz parte do grupo X ou Y. O que alguns chamam de “tenho que respeitar mas não preciso gostar” não passa de homofobia envergonhada. Lamento, mas não tem respeito nenhum aí. Melhor admitir que não se sente bem entre eles – é normal e humano, ué. Eu também não me sinto bem em alguns grupos  🙂

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P.S. Folks, posso pedir uma coisa? Por amor ao quesito “originalidade” numa argumentação? Vamos parar de usar clichés? É tããão cansativo tudo ser “reaça”, tudo ser “fascista”… Esses termos estão perdendo força de tanto que são (mal) usados. Bora se esforçar? Plis? Fica feio a gente reclamar de um pessoal por aí e fazer o mesmo. <3

 

 

 

Reflexões sobre o atropelamento dos ciclistas

Não vou repetir o que todo mundo já disse sobre a  questão do atropelamento dos ciclistas em Porto Alegre: já foi dito e redito que o motorista agiu de maneira criminosa e que não há como, em sã consciência, alguém dizer que o vídeo abaixo foi feito em legítima defesa (atenção, as cenas são bem fortes).

O Marcelo Soares fez um post onde ressalto algo importante: em síntese, o quanto de desconhecimento da legislação existe entre nossas autoridades. Isto porque o delegado indiretamente culpou os ciclistas em virtude destes não terem “avisado sobre o passeio”, desconsiderando totalmente o disposto no Código Nacional de Trânsito, que privilegia as bicicletas.

Por conta do comportamento do delegado, queria aproveitar pra falar sobre alguns pontos outros pontos que me chamaram a atenção quando soube do caso, os quais merecem análise e cuidados caso desejemos evitar mais comportamentos como esse no futuro.

1. Desconhecimento da lei por parte das autoridades

O primeiro é de quão a ideia de “carro como prioridade”, com direitos superiores aos dos outros veículos está de tal forma internalizada na maioria da população que mesmo uma autoridade (que deveria em tese conhecer a lei melhor do que cidadãos comuns) faz afirmações totalmente dissonantes não só da lei como da própria intenção do legislador. Isso tem que mudar. Não sei como, não sei se existe uma forma de se dar um “puxão de orelha” na autoridade que culpa os ciclistas ao invés de culpar o motorista, mas algo tem que ser feito. É nítido que o delegado vê transporte de bicicletas como um luxo, um lazer, algo que só se faz em parques ou em “países civilizados”, e isso tem que mudar. Precisa mudar, porque dessa compreensão advém inclusive a noção de gravidade do crime praticado, compreensão qeu escapa ao delegado. Não é crível que esta pessoa não tenha sido presa em flagrante (creio que fosse possível) e ela não foi porque o delegado, no íntimo, vê um pouco de razão na atitude do motorista. Até admito, fazendo o papel de advogado do diabo,  que um passeio ciclístico combinado é diferente, em termos de velocidade média, do mesmo número de ciclistas indo para locais diferentes com objetivos diferentes – mas nem mesmo isso justifica as afirmações estapafúrdias do delegado.

Há que se conscientizar portanto, tanto as autoridades quanto a própria população, que andar de bicicleta não é um luxo, uma brincadeira, mas uma opção de transporte que deve ser respeitada.

ISTO É UM ESTACIONAMENTO, QUE NEM O DE CARROS, ENTENDERAM?

2. Autoridades tem que fazer a prevenção desse tipo de crime agindo quanto à política de deslocamentos urbanos

Sem entrar no mérito da atitude absurda do motorista, a verdade é que o trânsito das cidades está deixando todo mundo neurótico e maluco, e que faz parte da prevenção quanto ao acontecimento de atropelamentos como esse uma melhor política quanto aos deslocamentos, os quais literalmente ensandecem qualquer habitante.  Justifica? Claro que não. Mas explica. E o fato é que as autoridades não dão a mínima para tentar solucionar este que é certamente um dos maiores problemas das cidades grandes brasileiras.

São Paulo está intransitável, alaga com qualquer dez minutos de chuva e andar pela cidade qualquer que seja o meio de transporte escolhido é impossível. Como se não bastasse isso, as autoridades fazem de conta que não é com elas. Tem uma estação de metrô inaugurada há mais de 6 meses que ainda não funciona em tempo integral. E pra variar, ninguém faz nada: nem nós, da população, nem aqueles responsáveis por vigiar isso (aliás, nem sei quem são – MP, talvez?).

Aposto com vocês: enquanto não se der soluções inteligentes e viáveis para os deslocamentos urbanos (e sem dúvida a bicicleta como MEIO DE TRANSPORTE e não como LAZER é uma delas), estaremos caminhando mais e mais para um inferno, onde cenas similares ao que ocorreu em Porto Alegre serão lugar comum, multiplicadas por sei lá quantos fatores. Há que se pensar em soluções (como eu aliás já mencionei nesse post).

Antes que vocês me crucifiquem: não estou justificando a atitude de ninguém, nem isentando aquele motorista das barbaridades que ele cometeu. No entanto, não há como negar que como ele, existirão muitos mais se algo não for feito. Meu raciocínio aqui é o mesmo utilizado quando se fala em prevenção de criminalidade: não basta punir o infrator, há que se impedir o crime, impedir que o criminoso potencial acredite que  auto-jurisdição resolva alguma coisa. Na toada em que estamos, ainda que se punam os crimes (e sabemos bem como é isso aqui no Brasil), haverá outros tantos, tendo em vista o fato de  o mundo estar cada vez mais cheio de gente desequilibrada emocionalmente que numa situação limite qualquer resolve fazer justiça com as próprias mãos. E cabe sim, às autoridades administrativas evitar que isso ocorra.

3. A teoria da baguete

Tendo dito isso, queria passar a um outro ponto, mais delicado, onde não só as autoridades como nós também temos que colocar a mão na consciência. É, nós. Eu, você e seu vizinho. Explico.

Meio brincando, meio falando sério, o @marcosvp falou outro dia que parte da atitude daquele motorista tem origem, em nossa sociedade, no tempo em que os pães passaram de baguetes (ou varas de sal, como chamam na Bahia) para pãezinhos franceses. Segundo ele, faz parte da vida se frustrar com o fato de não ter pego o bico da baguete (afinal, só há 2, e famílias possuem mais do que duas pessoas em geral) e aceitar o meio. Eu retruquei que aqui na minha casa não quero televisão nos quartos para poder ter a “briga pelo canal” que eu acho salutar para qualquer relacionamento e que muitos me criticam.

A verdade é que que hoje em dia, mais e mais pessoas não só evitam a qualquer custo situações de conflito (como se eles fossem necessariamente ruins, vejam só), como não têm qualquer tolerância à frustração. Pessoas falam que tomam rivotril dando risada (naquilo que já chamei de emponderamento da maluquice), sem se preocupar com as causas que as levam a precisar da droga para ter uma vida digna (aliás me ocorreu que está cheio de gente dirigindo sob medicação psicotrópica, o que deveria ser revisto, penso eu); pais não sabem dizer não para os filhos pois têm medo de desagradá-los e temos uma verdadeira ditadura de monstrinhos por conta disso, e por aí vai, em exemplos similares em vários tipos de relacionamentos.

O fato é que as pessoas lidam cada vez pior com contrariedade, agindo de forma cada vez mais agressiva por um dá cá aquela palha (quem vive na internet e no Twitter sabe bem do que estou falando). Além disso,vivemos num mundo em que existe a quase obrigatoriedade da felicidade, onde não só não há espaço para a tristeza, mas também ela é desestimulada, vista como fraqueza. Uma das muitas consequências disso é justamente o que ocorreu em Porto Alegre: por não saber lidar com frustração, o motorista fez que ninguém criança em shopping ou no jardim da infância: sapateou, mordeu o amiguinho. O impulso é o mesmo, movido pela mesma sensação; mudam apenas as consequências, tendo em vista que um carro pode ser uma arma na mão de uma pessoa que não saiba lidar com suas emoções.

Obviamente, estamos falando de uma situação limite, mas do jeito que a coisa vai, aposto com vocês que situações limite como essa se repetirão mais e mais.

Talvez vocês achem que eu estou exagerando. E espero que tenham entendido que meu ponto aqui não é isentar aquele motorista de culpa e sim fazer uma reflexão sobre como chegamos nesse ponto. Eu tenho certeza que os pontos acima estão profundamente interligados, e mais convencida ainda que é preciso fazer algo sobre aquelas questões que estão ao nosso alcance. Pensem nisso 😉

Enchentes e Passaportes – II

“dentro da mesma lógica, somos socializados (na família e na escola) aprendendo a não fazer muitas perguntas. Seja porque isso é indelicado, seja porque é considerado um traço agressivo que somente deve ser utilizado quando queremos ‘ derrubar alguém’.
Assim, não é de estranhar a surpresa dos brasileiros em países como os Estados Unidos, onde a pergunta é parte normal no mundo das relações sociais. Além disso, descobrem-se também formas interrogativas desagradáveis por lá, mas de modo bastante diverso. […] ‘ àqueles que se julgam com superioridade suficiente para poderem passar à frente de outros na alfândega ou no carro-restaurante, o americano dirá: Quem você julga que é (who do you think you are?), e obriga-lo-á a ocupar seu lugar’ ”  (Roberto da Matta, Carnavais, Malandros e Heróis, pág. 197)

Quando comecei a minha floodagem reclamatória no twitter, fazendo inclusive um mea culpa, porque eu também sou uma banana que não faz nada, a querida Janice Ascari (membro do Ministério Público Federal a quem muito admiro, e não escondo isso) mencionou qualquer cidadão podia fazer isso, e que alguns pontos eram também preocupação do Ministério Público Federal.

Ressaltou que a principal questão era descobrir como cobrar medidas preventivas das autoridades, esclarecendo ainda que muitos dos pontos levantados são de atribuição dos MPs  estaduais.

A Janice mencionou também a importãncia não só dos Ministérios Públicos (que, imagino eu, ao mexer nesse tipo de vespeiro devem sofrer pressões complicadas por parte dos governos), como também a importância da cobrança e pressão, por parte da sociedade, quanto às ações do Ministério Público. De certa forma, é um dos nossos deveres como cidadão. E por que não fazemos isso?

Tenho pra mim que não fazemos, que não temos a mesma disposição para cobrar as autoridades quanto temos para nos organizar para fazer doações porque não temos internalizado o proprio conceito de cidadania em sua forma plena. Porque embasamento e leis para cobrarmos o Poder Público nós temos (há mais textos interessantes aqui, neste outro site, e aqui também). Por que não ouvimos falar de ONGs ou outras formas de organização da sociedade civil que cobrem das autoridades o que elas nos devem? Não só isso, mas por que não se propõem projetos de lei visando a efetiva responsabilização  e condenação dos agentes públicos diretamente envolvidos em eventuais omissões?

Sinceramente? Acho que por enquanto é falta de condição mesmo. Nesse ponto entra o texto do Roberto da Matta citado inicialmente e o “passaportegate”.

Dos passaportes diplomáticos concedidos indevidamente

É assunto menor perto das enchentes? Decerto. É um costume daqueles que estão no poder em nosso país, independente do partido ao qual estejam filiados? Também. “Todo mundo” faz? Claro. Não tenho a ilusão de que Lula foi o primeiro a exercer influência para obter benesses indevidas (e não, não estou interessada em ser bedel da imprensa pra descobrir porque falaram do Lula e não de sei lá quem – quero resolver o assunto, só isso).

É um assunto menor, mas não significa que seja menos importante. Porque ao dizermos  que “isso não é importante”, “ isso é marolinha”, “ intriga da oposição”, “manobra do PIG”, “coloque-aqui-0-‘professora,-ele-me-xingou-por-isso-bati-nele’ da sua preferência”, estamos também dizendo “ entendam que quando estão no Poder é normal que alguns tenham privilégios; é normal que os detentores do poder  tenham mais ‘ direitos’ que você; ‘ eles’ são diferentes, você está abaixo deles, isso não é da sua conta.


Vocês me desculpem, mas o mesmo princípio que legitima (aos olhos de) um Ari Pargendler demitir um funcionário porque este último irritou o Ministro ao não sair da fila legitima o direito de um quase ex-presidente pedir, no fim do seu mandato, privilégios a seus filhos. Insisto: a mensagem, “ nós somos diferentes, nós podemos”, é a mesma. Aliás, foi exatamente isso que o Presidente da Câmara disse aos jornais: que isso não era assunto para ser discutido.

O Roberto da Matta explica umas coisinhas no mesmo livro (que a meu ver, deveria ser leitura obrigatória no 1o ano de qualquer curso universitário, com chamada oral sobre alguns trechos, para podermos entender melhor nosso país e nosso comportamento):

” Na medida em que as marcas de posição e hierarquização tradicional, como a bengala, as roupas de linho branco, os gestos e maneiras, o anel de grau e a caneta tinteira no bolso de fora do paletó se dissolvem, incrementa-se imediatamente o uso da expressão separadora de posições sociais para que o igualitarismo formal e legal, mas evidentemente cambaleante na prática social, possa ficar submetido a outras formas de hierarquização social.

[…]

Diante da lei geral e impessoal que igualava juridicamente, o que fazia o membro dos segmentos senhoriais e aristocráticos? Estabelecia toda uma corrente de contra-hábitos visando a demarcar as diferenças e assim retomar a hierarquização do mundo nos domínios onde isso era possível”  (pág. 199 – grifos meus).

Mais adiante:

” A moral da história aqui é a seguinte: confie sempre em pessoas e relações (como nos contos de fadas), nunca em regras gerais ou em leis universais. Sendo assim, tememos (e com justa razão) esbarrar todo momento com o filho do rei, se não com o próprio rei. É necessário pois, estar bem atento para a pessoa com quem se está realmente falando, o que leva a um estilo de relacionamento íntimo e, às vezes, descontraído no Brasil, como notam sistematicamente os estrangeiros que nos visitam. Não há dúvida de que temos cordialidade, mas também não parece haver dúvida de que esta cordialidade está dialeticamente relacionada à lógica brutal das identidades sociais, seus desvendamentos e o fato de que o sistema oscila entre cumprir a lei ou respeitar a pessoa” (pág. 216, grifos meus)

Eu pergunto: como é que com esse tipo de mensagem sendo veiculada ao longo de décadas (para não dizer séculos) as pessoas vão entender que têm o direito (e indo um pouco além, até o mesmo o dever) de cobrar posturas do Poder Público? Acho bem difícil. Aliás, o Poder Público sequer acredita realmente que tenha que dar alguma satisfação, para ser bem sincera.

Por isso acho que os assuntos se relacionam e devem ser tratados com a mesma seriedade: é somente através da conscientização (lenta, eu sei, como tudo que é sólido no mundo) de que independente de ter votado neste ou naquele  candidato, temos o direito de exigir determinadas posturas, bem como exigir responsabilidade  na gestão de seus mandatos é que conseguiremos evitar tragédias como as de agora.

Exercer a cidadania não é apenas pedir voto para o candidato preferido, e muito menos torcer para que a gestão do partido adversário naufrague. Isso é ser infantil. Cidadania, ao menos para mim, implica em ter honestidade intelectual para reconhecer erros e acertos dos governos, independente de quais partidos estejam no poder e cobrar dos representantes desse Poder Público o fiel cumprimento de suas funções, cobrando ainda punição para aqueles que não o façam – e de novo, independente dos partidos que estejam no poder nos sejam ou não simpáticos.

Não é fácil, eu sei – e faço aqui também um mea-culpa por também não ter essa condição. Mas há que se começar em algum momento, e temos que começar por baixo, vigiando, fiscalizando os pequenos deslizes – pois esses, em última análise, são a estrutura dos grandes delitos. Talvez, no dia em que toda a sociedade achar um absurdo que um governante peça privilégios para seus filhos de uma forma tal que seja impossível que estes sejam obtidos, nós possamos começar a cobrar do Poder Público punições para aqueles que são negligentes em seus mandatos causando mortes. Eu realmente espero que consigamos chegar nisso aí 🙂

The lady is always a tramp

Foi inevitável: em meio à ressaca de alguns e à posse da Presidente Dilma Roussef, surge a mulher do Vice-Presidente Michel Temer (a meu ver em outfit equivocadíssimo para a ocasião) em toda sua exuberância e juventude, arrancando tanto suspiros (e um pouquinho mais) dos moços (e meninas que gostam de meninas) quanto críticas de grande parte das mulheres, a grande maioria falando sobre a impossibilidade de existir amor verdadeiro entre pessoas com tamanha diferença de idade.

Uma querida minha no Twitter, jovem e linda (não sei se ela quer que eu a mencione, então não vou falar quem é) verbalizou com todas as letras: ao ver aquela cena de Michel Temer com sua mulher, ela visualizou seu maior pesadelo, o de ser trocada por uma mulher mais nova.

Não vou entrar aqui no mérito dos laços que unem o casal Temer: não os conheço, não conheço sua vida marital, enfim, não tenho quaisquer elementos para afirmar isso ou aquilo; mas quero aproveitar o gancho pra falar um pouco sobre casamento e principalmente sobre casamento entre pessoas com idades diferentes e os motivos pelos quais as pessoas se casam.

Sim, porque de repente todo mundo sai pregando que o amor romântico, aqueles dos filmes e romances, é condição sine qua non para duas pessoas se casarem quando não é bem assim. Amor romântico pode ser um dos motivos mas não é o único; é inclusive um motivo bastante recente em termos históricos.

“Ah, mas isso mudou e a gente pode mudar isso”. Claro que mudou. Acho excelente que hoje em dia as pessoas se casem porque querem constituir família com x ou y e não porque seus pais e os pais de x ou y assim decidiram. O problema para mim está em querer definir que amor romântico é o único motivo que deve fundamentar tal decisão. Porque não é. Aliás talvez até seja – desde que não se restrinja a ideia de amor romântico àquela dos romances de capa e espada de virgenzinhas suspirantes.

E os exemplos estão aí para não me deixar mentir. Cole Porter era gay, e casou-se com Linda Porter, que sabia de suas inclinações sexuais. Ela por sua vez, tinha sofrido abusos de seu ex-marido e não gostava de sexo. Tinha crises de ciúme de Cole, mas viveram sim, uma união muito agradável. Ambos eram riquíssimos, não precisavam estar casados se não quisessem. Está errado? Não era amor?

Jane Austen mesmo defende em seus romances que uma amizade sólida e gostos comuns são melhores para um casamento estável que aquela paixão avassaladora. Tem quem veja assim hoje em dia e seja feliz com isso. Por que não? “Ah, o sexo vai ser um horror”, dirão alguns. Pode ser que sim. E daí? Você lá sabe se essas pessoas gostam de sexo? Você lá sabe se elas se importam que os companheiros tenham sexo com outras pessoas? Quem disse que só um modelo (recente, como já disse) de conduta é o correto, o válido, ou o aplicável? Não é – e que bom que não é.

Normalmente as pessoas conseguem absorver os conceitos acima; a coisa complica quando a mulher jovem se casa com um homem mais velho, pois sempre há a suspeita de interesse financeiro. As suspeitas aumentam ainda mais quando a moça é muito bonita, pois nesse caso somente essa possibilidade justificaria uma união desse tipo.

<abre parênteses> quando o casal é formado por uma mulher mais velha e um rapaz jovem, a mulher é uma vagabunda que só pensa em sexo. Ou seja, como disse no título, the lady is always a tramp. Complicado, né? </fecha parênteses>

Engraçado que o Saramago era muito mais velho que Pilar, Caetano muito mais velho que Paula Lavigne, mas ninguém questionou o amor dessas duas mulheres por esses homens mais velhos. Só porque a Marcela Temer é loira e a “honestidade” dela está sendo colocada em dúvida?

Well, reitero o que a Lubom disse nesse post que eu assino embaixo: para muitas mulheres poder e dinheiro são componentes formadores da atração delas por um homem, a admiração pelo homem surge à medida em que a mulher pode aferir suas conquistas através desses signos de poder. Não há aqui o interesse financeiro: o fato de um homem ser rico mostra sua capacidade, e isso para algumas mulheres é atraente. Fim.

Mas eu admito ainda o puro interesse financeiro como motivo para se casar (aliás, acabei de lembrar de trechos do Orgulho e Preconceito em que as posses dos homens são enaltecidas e especificadas por eles próprios como um dos motivos pelos quais eles seriam bons pretendentes). Por que não? É antigo, mas se dois adultos entendem isso válido, quem sou eu para dizer que não?

É anti-ético, dirão alguns, e não entendo de ética a ponto de sair discorrendo sobre o assunto. Mas a meu ver, nada impede que algumas pessoas coloquem estabilidade financeira à frente de realização afetiva. Não é o meu estilo de vida, mas se a relação está satisfazendo os dois, não vejo porque condená-los.

Mas voltando ao início do texto e à minha amiga, acho que uma outra questão esbofeteia a gente ao vermos uma moça linda e jovem ao lado de um senhor: o medo das mulheres mais velhas de ser abandonadas por seus homens, que as trocariam por moças mais novas.

Acho que esse é um problema (social, eu diria até) complicado, e diria mais: é muito provável que ele tenha surgido com a possibilidade do divórcio, e paradoxalmente, com a ideia de que não há sentido em se manter um casamento quando não se está 100% satisfeito com ele. Sim, porque antigamente a mulher mais velha cumpriria as funções protocolares e o homem que quisesse um pouco mais de, digamos assim, viço, teria uma amante mais jovem. Hoje casamentos acabam (ainda bem), e nessa equação complicada, é pra lá de comum a mulher de 50, 60, vendo o ex-marido desfilar com uma moça que poderia ser neta do casal, tendo dificuldades em refazer sua vida.

É uma realidade dura mesmo. Eu ficaria muito triste. Mas a questão aí não é ser trocada por uma moça mais nova, é ser trocada. Eu acho que me sentiria muito pior se fosse trocada por uma moça mais velha ou da minha idade – ser trocada por uma moça mais nova é duro, doído, nos joga na cara que nos falta o viço de outrora, mas ao menos é mais compreensível (ao menos para mim).

Mas eu pergunto: se isso é inexorável, se é verdade que alguns homens (e não acho que sejam maioria) trocam suas mulheres por moças mais novas, não vai adiantar repreender essa atitude; temos que aprender a conviver com o fato e dar a volta por cima. Não, não estou pedindo para as pessoas se conformarem, bem ao contrário: estou pedindo para elas enxergarem além. Até porque, vamos e venhamos, é infantil desqualificar uma moça só porque ela é bonita (do homem ninguém fala, né? gozado isso).

Se pararmos pra pensar, já temos um esboço de reação: hoje em dia também há muitas mulheres pra cima dos 40, 50 anos, se relacionando com moços mais novo, se permitindo esse tipo de relação e gostando muito. Pode ser um caminho, se permitir a mesma atitude.

Aí o que faz a mulherada? Começa a falar que é ridículo uma “velha andar com um moleque”, que ela só pensa em sexo. Pode ser que sim, pode ser que não, normalmente relações são fundadas em mais do que um ponto forte, mas não, se a mulher tá com um moço mais novo, ela é sem vergonha e ele interesseiro. Esse discurso tem que mudar.

Volto ao mesmo ponto de sempre: o importante não é o que os homens fazem, mas sim o que as mulheres têm condição de fazer. É importante que elas tenham uma profissão e possam se manter caso o marido resolva terminar a relação por causa de uma moça mais nova. É importante que elas entendam que é recomendável ter uma vida além da vida do marido, tenham seus interesses, suas amizades, seu emprego – para o mundo não desabar se o casamento for desfeito.

Além disso, ao invés de se reclamar que as mulheres se casam por interesse econômico, é melhor lutar por oportunidades iguais para que as mulheres possam cada vez mais deter poder econômico e não precisem se casar com homens mais ricos que ela. E porque não dizer, até mesmo se casar com moços que vejam no interesse econômico um motivo para o casamento, ou que vejam no poder que elas detêm um fator de atração. Por que não?

Então moçada, a César o que é de César: Marcela Temer é bonita (apesar de ter errado feio na escolha da roupa da posse), mes compliments, mas não creio que a Dilma quisesse trocar de lugar com ela ou que tenha sido por ela ofuscada. São conceitos diferentes que estão querendo misturar, e desmerecer sua beleza é desmerecer as mulheres também. Cada macaco no seu galho. De minha parte, acho ótimo que no mesmo palanque estejam lá duas mulheres, ambas com qualidades e funções distintas. Os moços dessa vez foram coadjuvantes 🙂

Forçar a barra pra transar sem camisinha não é estupro, mas é babaca

Vou aproveitar que o assunto do momento é o estupro à sueca do Assange pra falar de um tema delicado que a gente ouve à boca pequena entre amigas: como é muito mais comum do que se imagina os homens darem uma forçadinha de barra pra transar sem camisinha e como é muito comum as mulheres acabarem deixando, por uma série de razões. Não tô exagerando não, podem perguntar pras suas amigas.

É estupro? Não, e detesto os exageros de algumas culturas quando começamos a falar de sexual harassment; mas também há que se refletir um pouco sobre o comportamento sexual de homens e mulheres atualmente.

Vou dar um exemplo: durante o sexo, o cara tenta transar sem camisinha. Pode acontecer de a mulher topar, e aí beleza, não há o que se falar. Pode acontecer de ela dizer não, o cara tentar de novo e ela topar. Até concordo que tenhamos um consenso aqui, porque afinal de contas há toda uma cultura de a mulher negar certos desejos masculinos para não passar por promíscua ou vulgar. Mas se na 2ª vez a mulher diz não e o cara insiste uma 3ª ou 4ª e ela porventura acaba topando, não acho que a história seja tão consensual assim não, por causa do entorno.

Sim, porque convenhamos, é muito mais gostoso transar sem camisinha mesmo, não dá pra negar isso – ou seja, você já tem que lutar contra a sua própria vontade-; além do contato da pele tem aquela sensação (ainda que fantasiosa) que uma barreira se quebrou (e efetivamente ela não está mais ali), de que o casal está mais próximo (ainda que estejamos falando de encontros mais casuais, o que eu costumo chamar de “cláusula de habitualidade sem exclusividade). E se ainda por cima a mulher gosta do cara é necessária uma dose de esforço hercúleo pra não acabar topando: ela diz não uma, diz não duas, mas na 3a oiu 4a ela acaba sucumbindo.

Só que é a mulher a maior prejudicada, né? É ela quem engravida, é ela que está propensa a contrair mais doenças… Aí no dia seguinte ela se sente mal porque a consciência pesa, acaba pegando uma raivinha do cara e… no final das contas o cara também passa uns perrengues, porque ela vai acabar atormentando o dito cujo, descontando a raiva que ela tem dela própria de não ter se agüentado.

Acho essa questão muito complicada de se abordar porque não existe um “preto no branco”: este seria o modelo sueco onde se a mulher diz “não” e o cara força a barra, ele a leva aos tribunais, e eu acho esse modelo meio bobo, porque ele ignora todo o jogo de sedução (e porque não dizer, de poder também) que envolve uma relação homem- mulher. Como tudo que tem nuances tem uma zona meio cinzenta, há que se ter o bom e velho bom senso, coisa que infelizmente, cada vez menos existe no mundo.

Vocês vão me dizer: ah, mas quer dizer que a culpa é sempre do homem? Não é isso. Claro que a mulher acaba transando sem camisinha por conta das fragilidades, inseguranças e fantasias dela, ou seja, ela também tem sua parcela de culpa, mas não dá pra dizer em algumas situações que ela QUERIA, que ela CONCORDOU. E nem estou mencionando o fato de nossa sociedade na maioria das vezes ainda ver como pilantra a mulher que tem camisinha na carteira ou que insiste na sua utilização – isso é mais difícil de se livrar do que vocês imaginam.

E  eu pergunto: que tipo de cara é aquele que, depois de ouvir 2 vezes da moça que ela não quer transar sem camisinha, insiste? Não me parece ser um cara bacana, né? Eu vejo esse cara como alguém tão inseguro e imaturo em alguns pontos que precisa se aproveitar da fragilidade da pessoa que tá lá se divertindo com ele para se sentir melhor.

E isso não tem relação com o grau de intimidade que o casal tem; pode até ser alguém que ele não saiba sequer o nome, isso não importa. Respeitar o próximo é condição sine qua non pra qualquer tipo de relação. Vale pro porteiro do seu prédio e pra piriguete que se atracou com você na balada e saiu de lá pra sua casa. Transar sem camisinha não é “um 3º território à sua escolha” que deve ser conquistado. Pensem nisso. As moças agradecem.