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Harry Potter e o inglês de meu filho

Harry Potter and the Half-Blood Prince Cover

Quem leu esse post aqui sabe que Harry Potter teve uma importância decisiva na iniciação à leitura do meu filho (aka lordrastajr); pois bem, aproveitando o gancho do lançamento do filme do Harry Potter, vou contar como a mesma saga fez com que ele começasse a ler em inglês.

Quando ele tinha uns 8 anos, já lia super bem, mas só em português; e como vocês devem saber, o lançamento dos livros do Harry Potter ocorrem primeiro na versão em língua inglesa, para depois ser traduzidos para as outras línguas.

Como eu adoro uma brincadeira, e sou daquelas que tudo tem que ser ontem, comprava sempre o livro na versão em inglês- que ele não conseguia ler. Quando o Harry Potter and the Half  Blood Prince saiu (por sinal, livro cujo respectivo filme estreia nessa madrugada) meu filho estava viciadíssimo em Harry Potter, feitiços, contra-feitiços, e coisas desse tipo.

Pois bem, o que eu fiz? Entrei naquelas comunidades de tradução dos livros (há uns anos atrás, assim que saía o livro o pessoal de cada uma dessas comunidades se dividia, cada um fazia a tradução automática e na sequência iam “acertando” as incorreções – algumas traduções ficavam bem razoáveis, devo dizer).

Eu imprimia cada um dos capítulos e… evidentemente não os entregava de mão beijada pro meu filho né? Tão pensando que ser meu filho é moleza? Na na ni na não…. ele tinha que PAGAR os capítulos, hehehe (nota: favor acrescentar risada maquiavélica ao fim desta frase).

grifinória

Eu fazia o seguinte: para ter o direito de ler o capítulo traduzido, ele tinha que traduzir algumas frases deste capítulo, que eu escolhia previamente (as mais simples, geralmente) e entregava numa folha de papel – mas bacana, eu decorava com marca d’água dos brasões das casas, ou colocava figuras das personagens…

Ele ficou puto, claro. Beeem puto. E eu ajudava um pouco, obviamente – meu intuito não era fazer dele um tradutor, e até sei que este não é um bom método para se aprender inglês; mas eu tinha dois objetivos ali: a) fazer com que ele valorizasse o que eu estava fazendo; b) fazer com que ele perdesse o medo de ver frases, livros etc,  em inglês.

Sabe que depois ele começou a curtir né? E é muuuito bacana ver a cara de satisfação de uma criança ao se sentir vitoriosa, ao sentir que conseguiu alcançar algo que ela julgava difícil conseguir, ao ver que superou um desafio – sem contar o que isso fortalece a auto-estima dela.

sonserina - harry potter

Anos depois (em 2007, ele tinha 10 anos) forcei-o a ler as tirinhas do Calvin em inglês. Comecei lendo com ele, obviamente, e ele, também obviamente, bufava de raiva. Mas aqui em casa tem algumas “matérias obrigatórias” e eu não tava nem aí. Todo dia lia com ele 2 ou 3 tirinhas (não mais que isso).

calvin

Depois de uns 2 ou 3 dias, ele mesmo começou a ler sozinho (histórias em quadrinhos são ótimas para ensinar língua estrangeira, porque os desenhos tornam o aprendizado mais leve, e dão a sensação – às vezes falsa- de que te ajudam na compreensão do texto).

Quando saiu o último livro do Harry Potter, estávamos no meio dos Lençois Maranhenses e não teríamos acesso a ele tão cedo. Mas como o mundo não é tão grande assim (e vá lá, eu conheço bastante gente) encontrei um casal de amigos com os filhos, em uma tarde numa cidadezinha micro micro micro que tem ruas de areia chamada “Santo Amaro do Maranhão”.

Santo Amaro do Maranhão por Ricardo Freire

Santo Amaro do Maranhão por Ricardo Freire

E esses meus amigos também tinham um método: o pai lia para os dois filhos o livro em inglês, em voz alta (o que, não sei se vocês perceberam, além de estimular o estudo de língua estrangeira, ainda agrega pai e filhos, certo? O veeeeelho truque de matar dois coelhos com duas cajadadas só, hehehe)  – e o que as crianças não entendessem, ele explicava. Como dali a alguns dias iríamos nos encontrar em Jericoaquara, meu filho  começou a participar dos saraus de leitura assim que chegamos lá.

Quando finalmente pegamos nosso exemplar do livro, fiz a mesma coisa. Algumas horas depois, meu filho falou que era melhor eu parar de ler em voz alta porque a leitura assim era mais devagar. E perdi o livro na minha primeira ida ao banheiro, porque na volta ele estava lendo absorto e não ia me esperar de jeito nenhum… E foi assim que ele começou a ler fluentemente em inglês, alguns meses apenas antes de embarcar sozinho para a Inglaterra a fim de visitar os primos e os tios.

Ensinar (e consequentemente aprender) pode ser uma atividade divertida – é só fazer com que seja assim. Para mim e para meu filho, que somos (dizem, eu não acredito) extremamente competitivos, fazer do aprendizado uma gincana sempre será algo estimulante. Tudo o que vocês precisam descobrir é qual é a forma de diversão do filho de vocês e explorar isso” ;-)

THE END

****

P.S. Desde que ele voltou da Inglaterra nós só vemos filmes e seriados com legendas em inglês – e essa é uma boa dica para usar com filmes que seus filhos já viram um zambilhão de vezes (crianças adoram ver filmes muitas vezes). Elas vão reclamar? Claro que sim!! Mas elas também reclamam quando as mandamos escovar os dentes ou tomar banho, certo? É a mesmíssima coisa.

P.S. II – pros curiosos, mais fotos dos Lençóis aqui

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Controlando o que seus filhos veem na internet

No meio de maio, fui entrevistada,  juntamente com a Sam Shiraishi pelo G1  sobre segurança e controle dos filhos na internet, (achei que a matéria ficou bem bacana).

Por causa dela, a produção do Olhar Digital da Rede TV entrou em contato  e gravou a entrevista abaixo, comigo e com o meu filho (aka lordrastajr).

Deem uma olhada:

Todo mundo elogiou bastante.

Aproveitando o gancho, acho que vale a pena me estender um pouco mais no assunto: quem lê meus textos sabe que, apesar de usar bom senso, por vezes tomo algumas decisões um tanto quanto heterodoxas ; e como toda decisão  implica em risco, é bom termos certeza das decisões tomadas para não só decidir se queremos correr aqueles riscos, como também para não nos arrependermos depois. Então achei legal trazer os conceitos que eu utilizei para conduzir este assunto dentro de casa. Vamos lá:

1. Crianças Muito Pequenasacompanhamento dos pais “corpo a corpo”

Eu acho que até determinada idade ( e qual é a idade é algo que tem que ser determinado pelos pais, com bom senso – criança não é manual, e cada caso é um caso, até pelo amadurecimento) a criança sob hipótese alguma deve acessar a internet sem assistência de um adulto. Sou radical mesmo. Vocês agora vão me perguntar: e no caso dos pais que trabalham e não ficam o dia todo perto dos filhos? Bom, eu vou responder: os pais que trabalham não devem permitir que uma criança de 4, 5, 6 anos acesse a internet quando eles não estiverem em casa. Simples como isso. Sem nó nem piedade. Até porque criança tem que brincar, fazer outras coisas.

<parênteses>: meu filho, apesar de estudar à tarde no primário, não podia ver televisão pela manhã. Cansei de ter que responder à pergunta: mas se ele não vê televisão, o que ele faz? Ao que eu respondia: ele BRINCA. Brinca como toda criança brincava antes de existir televisão, exercitando o lado lúdico dela. </fecha parênteses>

2. Crianças maiores – limitação do tempo ao computador

Passada essa fase, acredito ser viável dar um pouco de autonomia para a criança, deixar ela navegar sem você estar ali ao lado como um papagaio de pirata. Nessa fase, caso a opção tenha sido permitir acesso à internet na ausência dos pais, creio ser de suma importância um filtro ou programa controlando horário de utilização tanto da internet quanto do próprio computador (pessoalmente, acho que o tempo da criança tem que ser dividido entre esportes, leitura, tempo pra fazer nada, para ela poder inventar brincadeiras, tv e computador).

3. Porque eu não gosto de filtros de conteúdo

Não sou muito adepta dos filtros de conteúdo, confesso. Por outro lado,  eu sou aquela que também não é adepta de grades, então tenho consciência de que minha conduta não é corrente majoritária, digamos assim. No entanto, a vigilância antes de deixar meu filho entrar na internet sem filtro era mais cerrada. Explico:

a). Como eu disse no item 1, no começo a vigilância era mais cerrada; mesmo depois, havia algumas proibições:  antes dos 10 anos, por exemplo,  meu filho não podia ter orkut (quando eu liberei, ele não quis, achou idiota :lol: ), não deixava apagar o histórico (ele nunca fez isso, mas se apagasse, eu o deixaria sem um computador por uns tempos – simples como isso). Ou seja: restringi bastante o meu filho quando ele era  pequeno porque acredito que liberdade implica em responsabilidade – e só posso colocar responsabilidade nas mãos de meu filho quando ele tiver condições de exercê-la. E não, não acho que uma criança de 5 anos tenha discernimento para entrar na internet sozinha, onde terá que decidir se um site é confiável ou não, e otras cositas más. Além disso, como eu gosto de explicar os motivos das restrições, eu realmente não estava a fim de ter que explicar pra alguém com 5 ou 6 anos o que é pedofilia, sequestro e porque você não pode conversar com estranhos. E eu só vou até onde EU consigo (fato do qual os pais esquecem – não é somente os limites dos filhos que devem ser respeitados, mas os deles).

<parênteses> com uns 8, 9 anos, meu filho começou a jogar gamão on line (começou fazendo isso com sua prima, que mora no exterior) – e esse tipo de jogo permite a interação entre os jogadores, daí a minha preocupação. E estou plenamente convencida que a criança obedece muito mais facilmente às regras cujas razões de ser possam ser por  ela  compreendidas. Logicamente algumas regras não podem ser explicadas – mas cabe aos pais limitar o uso desses atos arbitrários da educação. Do mesmo jeito que é horrível viver num país onde há medidas provisórias sendo promulgadas toda hora, sem que a legislação passe pelo amadurecimento do processo legislativo, uma educação fundamentada apenas no “porque sim”, a longo prazo, não vai funcionar. Há que se sopesar portanto, as determinações arbitrárias, os “porque sim”.

4. Como explicar para uma criança pequena quais são os perigos da internet

Disse aí em cima que a partir do momento em que eu decido que a criança pode acessar a internet sozinha, tenho explicar as regras básicas de segurança e os motivos pelos quais essas regras existem. O duro é abordar esses assuntos tão sérios de uma forma que deixe a criança atenta sem apavorá-la.

Eu tenho um método: falo só o que for estritamente necessário. Não há necessidade de desenvolver uma tese de doutorado sobre pedofilia para uma criança: você tem que falar o necessário para que ela entenda o perigo e saiba agir se algo ocorrer. Só. E se ela quiser saber mais detalhes, ela pergunta. Criança quando quer saber, pergunta. E aí você responde só o que ela perguntou. Simples como isso. No caso da internet, os discursos utilizados por mim foram:

“filho,  tem gente que rouba criança e se eles souberem o seu endereço  podem vir te roubar e eu não vou poder te ver mais – como a gente não sabe quem é legal e quem não é, não se dá endereço pra ninguém e desconfia-se de quem o pergunta” (é, falo assim mesmo – a ideia é assustar de ver-da-de).

filho, tem adulto malvado que gosta de namorar criança à força ( e por isso você não deve conversar com pessoas na internet. Se por um acaso alguém começar a conversar com você, saia, não responda, e se houver algum adulto por perto , chame-o” (eu sei que não é namorar, mas como eu disse, falo do jeito que eu consigo falar com uma criança de 5, 6 anos de idade).

Não sei dizer se esta é a melhor forma – é a minha, e deu certo. Cabe a cada pai descobrir como ele se sente confortável ao abordar esses assuntos com os filhos. Criança percebe insegurança na voz – e se perceber, não vai acreditar no que está sendo dito. A forma como se diz algo é tão importante quanto o conteúdo.

5. Como agir quando a criança efetivamente entra em sites impróprios

Vocês vão perguntar: e se ele entrar em sites com conteúdo impróprio para a idade dele? Bom, ele pode entrar em sites proibidos por duas, no máximo, 3 razões: a) entrou por engano: b) entrou porque quis; c) entrou porque o amigo indicou o site.

Se ele entrou por engano vai achar tudo estranho e sair dali (de certa forma, a criança sabe o que é impróprio e o que não é – veja meu filho no caso da biografia do Slash por exemplo. E se porventura ele entrar por engano e se interessar pelo assunto…bem, então chegou a hora de eu explicar o tema em questão, para que ele não tenha informações incorretas (ou incorretas sob a minha ótica, bien compris). Eu que trate de dar uma informação na linguagem e da idade dele e com as informações que ele precisa.

Resumo da Ópera? Eu faço esse modelo liberal, mas na verdade até adquirir confiança eu sou super controladora; justamente por isso, ao invés de não deixar algumas coisas acontecerem , prefiro monitorar pra ver se elas acontecem ou não. Porque se não houver acesso a sites impróprios, sinal de que ele está com os interesses próprios da idade dele. Caso não esteja…eu quero saber. Quero saber não pra punir, mas para direcionar. Uma criança de 8, 9 anos que entra no google querendo saber o que é maconha ou cocaína está querendo saber sobre drogas – e tem um motivo para tal, então é bom ficar alerta. O mesmo vale para a sexualidade. Vou achar estranho se descobrir que meu filho entra num site de., sei lá, sexo com animais (já aconteceu com o filho de uma conhecida minha) – mas me preocupa mais entender o motivo dessa curiosidade do que a curiosidade em si, sacaram?

É assim que eu penso – sei que não é todo mundo que pensa assim, mas como eu sempre digo, que seria do vermelho se todos gostassem do azul, certo?

*****

No site do olhar digital onde a matéria foi divulgada há vários sites de controle de conteúdo e tempo na internet, inclusive com download gratuito para quem quiser se aprofundar no assunto: vale dar um pulo lá.

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Slash, drogas e filhos

Quando eu tinha uns 14 anos (acho que era isso, porque estava na 8a série) a moda era ler “Eu, Cristiane F., drogada prostituída”. Pra ser sincera, não sei se cheguei a pedir para ler o livro, pois tinha certeza absoluta que meus pais não deixariam. O que eu fiz? Li escondida na escola, durante as aulas (eu nunca prestei atenção nas aulas mesmo, e como era boa aluna o professor não podia fazer nada).

Então vocês imaginem como eu fiquei quando meu filho disse que queria comprar a biografia do Slash “com o dinheiro dele”.

Confesso que até imaginava que numa biografia de um roqueiro (o Slash, pra quem não sabe, é o ex-guitarrista do Guns and Roses) rolasse descrição sobre uso de drogas e tal, mas caramba, quando dei um’olhada (antes de entregar o livro pra ele) fiquei passada e engomada, sabem? Aí veio aquele dilema: dou o livro pra ele ler ou proíbo dizendo que ele ainda não tem idade para isso?

slash

Pensei bastante e, principalmente pelo fato de ter lido “Eu, Cristiane F., drogada, prostituída” escondida dos meus pais, achei melhor liberar conversando com ele sobre o assunto.

E o meu “conversar sobre o assunto” talvez não seja o “conversar sobre o assunto” que vocês estejam imaginando, até porque tenho uma visão um pouco mais realista (para não dizer pessimista) sobre o tema.

Sob o meu  ponto de vista, hoje em dia essa história  tem que ser trazida à baila muito mais cedo do que se imagina, pois as crianças têm muito mais acesso à informação do que nós tínhamos; além disso,  é inegável que o consumo de drogas, além de ser introduzido mais cedo entre os adolescentes, também  aumentou (basta sair à noite em São Paulo para perceber que a “função banheiro” tem aumentado horrores, que “bala” – ecstasy- é consumida de forma habitual, e por aí vai);  em decorrência do segundo fator, é praticamente impossível que seu filho não tenha contato com alguém que use drogas ilícitas quando tiver com uns 14, 15 anos (daí pra frente não vou nem falar mais nada – espero que vocês não sejam ingênuos certo?).


Tem uma coisa que eu gostaria de deixar esclarecido aqui que talvez deixe vocês espantados:  até por conviver com gente muito mais moça do que eu, e conhecer pessoas que, mesmo com 40 e tantos anos, família e profissão estáveis, de vez em quando fumam um baseado (sim gente, isso existe – aliás, esse texto aqui fala disso muitíssimo bem falado), acho praticamente impossível que meu filho (ou o de vocês, bien compris) não vá experimentar alguma droga ilícita durante a adolescência;  o acesso a elas é cada vez mais fácil, e seu uso está cada vez mais disseminado – ou seja:  não há tanto estigma quando elas são utilizadas. Mas confesso que isso não me apavora tanto assim; podem me crucificar, mas eu consigo conviver com o fato de imaginar meu filho experimentando maconha; mas daí pra cocaína,  heroína e crack são outros 500 certo? Vale ressaltar:  não é o uso da maconha que está crescendo a níveis exorbitantes, é o uso da cocaína e do crack ( e espero que vocês saibam que o ecstasy está virando carne de vaca em tudo quanto é lugar – sinto muito, mas não dá pra tapar o sol com a peneira).

Então, penso eu, levando em consideração tudo o que falei aí em cima, e uma vez que o acesso às drogas está mais fácil, acredito que  o acesso à informação também deva existir na mesma proporção para evitar que meu filho caia em roubadas que podem ser danosas para ele.

Pensando nisso, e tomando o livro do Slash como ponto de partida, expliquei algumas coisas: não menti que as drogas têm um efeito bom quando utilizadas (esse para mim é o maior erro das campanhas anti-drogas: não falar sobre as sensações benfazejas da droga – ainda que tais sensações sejam efêmeras), mas que as consequências podem ser desastrosas, e principalmente,  o quão absurdamente viciantes algumas delas podem ser. Ou seja: não adianta mentir que elas não têm nada de agradável, mas que o preço que se paga por tais sensações é alto demais para obtê-las.

cocaina

Acho também  importante explicar para a criança (a partir de uma certa idade – meu filho tem 12 anos e um bom desenvolvimento emocional) que o perigo das drogas é justamente não saber qual delas terá o poder ou a condição de te viciar; todos temos um canal, maior ou menor de compensações, a verdade é essa. Eu por exemplo, fumo esporadicamente há anos (um cigarro numa festa, outro meses depois e assim por diante)  e nunca tive problemas; em compensação, sou dependente química de açúcar (daquelas de procurar leite condensado na cozinha como alcoolatra procura bebida em filmes B – e nem venham dizer que isso não é sério, porque açúcar e obesidade matam – em igual ou maior proporção que as drogas ilícitas). O pai do meu filho,  por sua vez, fuma um maço de cigarro por dia, apesar de já ter conseguido ficar anos sem fumar. Ou seja: basta um cigarro na hora errada ou na fase errada da vida e o vício volta, porque a dependência é muito forte. Em compensação, alcool não é um problema, ele (tanto quanto eu) bebe socialmente (aliás, sobre a bebida e adolescentes, vale ler o post bárbaro da Rosely Sayão sobre o assunto).  E a verdade é que, se algumas drogas criam dependência absurda logo nas primeiras utilizações, existem outras, consideradas mais leves, cujo efeito no organismo varia de indivíduo para indivíduo – simplesmente não dá pra prever o que vai rolar. Acho que apontar esses exemplos, que meu filho pode comprovar, ajudam no convencimento. Porque a questão é essa: não adianta os pais “proibirem”; a criança tem que estar convencida de que aquilo não será bom para ela e que ela deve se afastar da roda que tem esse comportamento - a pressão na adolescência para entrar nesse tipo de coisa é forte, e só ajudando a formar a convicção da criança é que há chances dela não fazer (muita) besteira na adolescência.

heroina

Há também a questão social: estamos vivendo uma época pós anos 60 e 70 – o mundo não é mais dividido entre pais caretas e jovens revolucionários; seu filho (e o meu) inevitavelmente terá contato com amigos que, na volta de uma festa, ou numa dessas conversas à noite durante uma viagem, dirá que os pais fumam maconha e que ele sabe. Ainda que seu filho não frequente a casa desse amigo, ainda que o amigo tenha a cabeça no lugar, esse é o tipo de informação que, ao chegar num adolescente, pode confundir – então há que se ressaltar a questão da impossibilidade de se prever qual droga dará a sensação de prazer que ele pode querer procurar em situações limite, bem como ser muito claro quantos aos efeitos de cada uma das drogas (lícitas e ilícitas), ainda que isso dê um medão dos diabos.

Vou falar de novo, mesmo correndo o risco de ser repetitiva:  não vou achar nem um pouco engraçado se um dia eu descobrir que meu filho andou fumando maconha – só estou dizendo que acho difícil, nos dias de hoje, que ele não faça isso, e aí está a maior dificuldade em direcioná-lo: eu não sou tão ingênua.

E por não ser ingênua, na minha política de damage control (porque acho  muito difícil que uma hora ou outra a pessoa não sucumba à curiosidade, e gosto de trabalhar com o pior cenário) quero que tal fato, em ocorrendo, que ocorra o mais tarde possível, quando meu filho, se tudo der certo, estará muito mais estruturado emocionalmente e com a sua formação completa.

Voltando à biografia do Slash, queria ressaltar outro ponto: a questão de um cara  admirado pelo meu filho  usar (ou ter usado)  heroína, e que alega criar  melhor quando estava sob o seu efeito, bem como afirma ter jamais deixado de cumprir com suas obrigações (shows, etc) quando era viciado  (Keith Richards, dos Rolling Stones, ao contrário, sempre disse que só fazia porcaria quando estava drogado – li recentemente  no livro de entrevistas da Rolling Stone). Aliás se pararmos pra pensar, o House do seriado é outro cuja dependência de drogas (ainda que lícitas) deve ser apontada – não é bom que crianças admirem uma personagem incondicionalmente sem se dar conta de seus defeitos e fiz questão de apontá-los (well, adolescência serve pra ver que nossos ídolos não são perfeitos, certo?)

A parte boa do livro (e que me deu um certo alívio) é que ele fala mais à frente que aquilo acabou com ele, que ele está “limpo” há alguns anos; já  um outro integrante da banda se deu tão tão tão mal por causa de heroína que no fim das contas, tirando o fato de ser um ídolo que usou drogas, o livro acaba  funcionando bem para mostrar os danos que elas causam.

Um outro aspecto que não devemos ignorar é o da confiança em nossos filhos. Quando comecei a conversar com meu filho, sobre o conteúdo do livro,  ele falou: ” Mã, eu sei que ele usava heroína; por isso perguntei se podia comprar o livro, porque não sabia se você iria deixar eu ler” – ou seja, além de já ter conhecimento que o cara usava heroína (ou seja, ter proibido a leitura do livro não teria adiantado nada) ele está bem ciente que aquilo é errado e danoso; então acredito ser meu dever confiar  no discernimento que ele está começando, como bem disse a Rosely Sayão no link anterior.  É fácil? Não, não é; é  angustiante, é aflitivo, é atormentador -  porque no fim das contas não dá pra saber se tudo aquilo que você inculcou no seu filho anos a fio vai surtir efeito lá na frente; mas eu não acho que trancá-lo numa redoma de vidro vá resolver o problema então… eu tento fazer o melhor possível e rezo para estar certa… O tempo dirá né? Ou não.

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Quero deixar bem claro: não estou fazendo apologia de droga, nem defendendo o uso de quaisquer drogas; só estou tentando mostrar para vocês como o mundo não é mais tão preto no branco como algumas pessoas (e as campanhas anti-drogas) querem nos fazer crer. Igualmente, esse texto não tem qualquer embasamento técnico ou científico; é baseado nas minhas percepções como mãe e como pessoa que transita entre diversos círculos sociais, e também em minhas convicções pessoais. Não tenho a menor pretensão de ser dona da verdade; apenas estou tendo coragem de falar como encaro esse assunto. Espero que sirva para reflexão.

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Como seus filhos estudam?

Meu filho e eu temos conversas bacanas – principalmente as que ocorrem no carro durante nossas viagens, ou então à mesa no jantar (sim, na minha casa, apesar de sermos só nós dois, senta-se à mesa para jantar, com toda a formalidade de um grande jantar de família, sem TV ou similares: é a hora em que conversamos sobre o nosso dia). Ontem, falando sobre uns amigos dele que são, digamos, intelectualmente limitados, meu filho falou:

- Sabe Mã, dá um pouco de aflição, porque eles estudam TODO DIA, eles se esforçam e não conseguem tirar mais do que 5, 6… Se bem que…eles estudam que nem todo mundo estuda, lendo e pedindo pra alguém tomar a lição depois; eles não estudam que nem vc me ensinou sabe?

Quando ele disse isso, eu me lembrei. Tenho métodos um tanto quanto heterodoxos pra fazer algumas coisas (como aquele da história do ovo, ou quando estimulei meu filho a ler), e se de um lado eu simplifico as coisas para não dar muito peso em algumas denominações, de outro tenho que admitir que não me esquivo das minhas obrigações de mãe. E ensinar a estudar, como meu filho bem lembrou, foi uma delas.

Em primeiro lugar, aqui em casa História, Geografia, Física, Biologia etc não são matérias do curriculum escolar; são assuntos – os quais são tratados a qualquer hora do dia ou da noite, a depender do interesse ou da situação que propicie a conversa; o fato daquilo servir sei-lá-quando para avaliar o desempenho escolar dele é DETALHE. Eu quero um filho culto; tirar boas notas é consequência e não causa.

Em segundo lugar, quando ele foi para o 1° ou 2° ano e começou a ter provas, eu o chamei para uma conversa. Disse que a partir dali os professores iam querer saber se ele tinha aprendido as coisas que eles ensinavam, se ele sabia fazer as lições, e que para isso, ao invés de ver somente as lições que ele fazia em casa, haveria uma “lição especial” que seria feita em classe – e que essa lição, não me perguntasse ele porquê, chamava “prova”, mas era a mesma coisa: tudo o que ele precisava fazer era fazer a lição especial caprichada do mesmo jeito que ele fazia as lições de casa, ou seja: dando o melhor de si (vale dizer: às vezes, um 9 é um lixo se a criança fez a prova de qualquer jeito, e 7 pode ser excelente se ela se esforçou)

mãe e filho estudando

Na primeira semana de provas, eu fiz questão de ensiná-lo a estudar. Sentei com ele, e fiz a mesma coisa que minha mãe fez comigo quando eu era pequena: ensinei-o a ler tentando entender quais partes eram mais ou menos importantes no texto, grifando o que ele tivesse julgado importante (e essa é a parte mais difícil de ensinar, e no começo somos nós que mostramos o que é e o que não é relevante, delegando a tarefa ao correr das páginas); depois, ensinei-o a fazer um resumo da matéria (inclusive com aquelas chaves e tal – qualquer criança hoje em dia compreende um sistema simples). Repeti o procedimento em praticamente todas as matérias naquela semana.  E só.

Ensinei-o  a ler o resumo que ele mesmo fez antes da prova, pra lembrar o que estudou. Fiz questão de ver as provas e perguntar se ele sabia a resposta do que ele tinha errado (aliás, faço isso até hoje); antes da prova falava pra ele prestar atenção nos pontos fracos dele (em matemática ele é distraído, em português prestar atenção na ortografia e pontuação etc), exatamente como um técnico de um time faria durante o jogo (afinal, educar é darmos coaching da vida, se pensarmos bem…)

Resultado? Ele vai super bem, e hoje eu não tenho preocupações. Eu sei que tenho a sorte de ter um filho disciplinado, que apesar de só estudar em véspera de prova (no método tradicional, bien compris, porque aqui em casa é raro o dia em que não temos um assunto interessante para debater), estuda e não vê problema nisso. Mas pensando bem, talvez ele não veja problema nisso porque aprendeu a estudar de uma forma mais ativa, menos maçante, e que tem também a propriedade de determinar  o tempo de estudo dele também – pois uma vez terminado o resumo, terminou o estudo -  fait acomplit. E quem tem filhos sabe que para uma criança, ter noção e definição de tempo e duração das atividades é muito importante – ainda mais quando estamos falando de obrigações e não de lazer…

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Espero não ter sido pretensiosa no texto;  mas a verdade é que  outro dia uma leitora do blog fez um elogio que me deixou toda pimpona: disse que dava os meus textos sobre educação (uau, chique né?) para o marido dela ler, porque os achava muito sensatos. Então, já que tenho público, falo o que eu penso, certo? ;-)   Espero ter ajudado! E quem tiver alguma dica sobre o assunto, favor deixar seu pitaco nos comentários tá?

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Seus filhos têm limites?

Outro dia, falando sobre a assuntos discutidos no Mãe com Filhos com a Sam Shiraishi, disse que ficava um pouco incomodada quando vias algumas mães afirmando não saber como proibir seus filhos de fazer alguma coisa. Aliás, não é uma questão de ficar incomodada: é que, longe de ter todas as respostas para educar meu filho, eu sempre me apavorei com a idéia de não ter ascendência moral sobre  ele quando a adolescência chegasse – não quero perder o fio da meada né?

Sabem aquelas cenas doidas de filme de “tiro-e-bomba” onde o herói desarmado convence o vilão armado a baixar a arma? Então…Eu gosto de pensar que sou a heroína, e o meu filho o vilão malvado que não me obedecesse. É um jogo. Um jogo de poder, um jogo perigoso, mas ainda assim um jogo.

Yoda - eis alguém que sempre impôs respeito hein?

E queria ressaltar uma coisa: a questão dos castigos físicos. Eu sei que alguns pais (e mesmo alguns educadores) defendem que umas palmadas de vez em quando não fazem mal nenhum; até acho que não fazem mesmo – mas ao mesmo tempo em que não fazem mal (ou, melhor dizendo, não traumatizam), também não fazem bem algum.

Na minha concepção, um tapinha “sem conseqüências” mostra somente que o pai  perdeu o controle; mostra somente que aquele fedelhinho atormentou-o tanto, mas tanto, que ele partiu pra agressão física – ou seja, mostra que, em última análise, o pai perdeu. E qualquer criança inteligente percebe isso – e certamente, apesar do susto e da dor da palmada, terá essa consciência e usará isso contra o pai assim que conseguir ordenar o seu raciocínio e desenvolver uma boa capacidade de argumentação. Por essas razões aí em cima é que nunca dei um tapa no meu filho enquanto ele era pequeno: eu achava que o importante não era somente disciplinar naquela hora, mas sim construir uma relação de respeito onde a minha voz de comando fosse suficiente para que,  aos 15 anos de idade, eu continuasse  a ter ascendência sobre ele  (sim, porque ele seguramente estará mais alto, mais forte e mais contestador – e o que eu vou fazer? contratar um leão de chácara pra bater nele? Não rola né?).

A Rosely Sayão em um post sobre o assunto, colocou o tema sob uma perspectiva bastante interessante:

Essa é a ponte, para mim, entre educar e cozinhar: a transformação que podemos produzir nas duas atividades, uma tão distinta da outra, mas com tantas características em comum.

Quem cozinha precisa ser paciente e persistente; quem educa também. Para cozinhar é preciso prestar atenção em todos os detalhes; para educar também. Cozinhar é um ato de extrema generosidade; educar também. Cozinhar dá um trabalho danado; educar também. Para cozinhar é preciso despir-se de todos os preconceitos; para educar também (grifos meus – e vale conferir o post completo no blog dela viu?)

Adorei a metáfora e acho que é por aí. Pais têm que ser incansáveis. Vocês vão  perguntar: mas então como  fazer? Diálogo? E eu vou responder: mais ou menos. Sou super a favor do diálogo, de ouvir o lado do meu filho, os pleitos dele, o ponto de vista dele, e até negociar o que eu julgar negociável – mas a decisão final é minha, é  inquestionável e sem recurso cabível (e com punição caso haja descumprimento, simples como isso).

by tomitapio

Tem um ponto que acho importante: vc tem que decidir o que é prioritário na educação do seu filho – senão, ao impor uma lista infindável de regras, corre-se o risco de:

a) criar um macaquinho amestrado;

b) não conseguir que nenhuma das regras impostas seja cumprida e sua casa vire uma quizumba.

Na minha casa alguns pontos são questão fechada:

a) educação à mesa (eu sou muito rígida com isso, sério);

b) leitura (com bibliografia que eu decido – claro que ele pode ler além disso, mas algumas coisas devem ser lidas porque eu acho importante e pronto);

c) responsabilidade quanto à vida escolar;

d) prática de algum esporte 4 vezes por semana;

e) língua estrangeira;

g)horários para videogame e televisão.

<parênteses> É bom deixar claro que a maioria dessas imposições ocorreu  depois dos 7, 8 anos de idade – antes disso, priorizei o lúdico, o tempo livre pra brincar ao invés de ter um mini-executivozinho em casa </fecha parênteses>

Também não há privacidade de msn, correspondência ou no celular – meu filho é menor de idade e essa privacidade tem sido conquistada por ele à medida que vejo que ele está se tornando um rapazinho que não é um mané. Só deixei ele ter um orkut depois dos 10 anos de idade (e aí foi a vez dele de dizer que não queria, porque acha aquilo idiota).

Mas tem coisa legal sim. Quando me questiono sobre a correção com que conduzo as coisas aqui em casa, sempre me lembro de um “sobrinho postiço” que eu tenho e que, certa feita falou pra mim:

” Tia, aqui na sua casa é um quartel general liberal – quartel general porque tem que fazer as coisas chatas, bla bla bla, mas quando é zona…é zona pra valer”.

Ouvir uma coisa dessas não tem preço, fala a verdade né?

Acho que o segredo é esse: definir o que é importante proibir e acreditar nas proibições impostas.  Também é importante fazer com que essas proibições sejam obedecidas, para com isso, dar a seu filho a segurança de que aquelas proibições, uma vez definidas, são pra valer. Meu filho sabe que quando eu digo “se vc jogar o jogo X eu pego o videogame e jogo ele fora” eu pretendo mesmo cumprir aquela afirmação – e aí está um outro ponto importante: só faça ameaças que você tenha certeza que vai conseguir  cumprir; não seja mais rigorosa nas palavras no que você será nos atos, pois, caso isso aconteça, você perde credibilidade – e isso é a ruína numa relação onde você tenha que ter comando. Castigar, impor restrições normalmente é mais doloroso para quem aplica o castigo do que para o castigado – é importante que o pai pense no quanto ele aguenta ao impor uma restrição ao filho (e quem tem filhos sabe que eles apelam e cortam o coração da gente).

Em suma: até que seu filho entre na adolescência e conteste o seu padrão, os seus valores, você é a referência para ele: e da mesma forma que um general não pode desapontar seus soldados, você também não pode  desapontá-lo: cumpre a você elogiar o que foi feito corretamente, mostrar firmeza nas suas posições, e muito principalmente, escolher as batalhas que vai lutar. Afinal, nesta guerra não podemos nos dar ao luxo de perdermos muitas batalhas, certo? ;-)

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P.S. I – É bom deixar claro: esse é o meu ponto de vista, sem qualquer embasamento técnico – sou apenas uma mãe de um menino de 12 anos que, apesar de ser levado, é educado.

P.S I I- Antes que vocês me perguntem: eu NUNCA dei um tapa no meu filho. Nem no dia em que ele cuspiu na minha cara, com uns 4 anos. Nesse dia foi quase. Meu filho não é flor que se cheire mas é extremamente educado e nunca foi uma daquelas crianças que corre em restaurante ou grita em locais inapropriados.  Ele não é burro né? Sabe muito bem que eu não bato, mas sou mais brava do que as mães que batem. Sabem por quê? Porque eu NÃO DESISTO.  Ele já está com 12 anos. Será uma longa e extenuante adolescência, porque ele é extremamente talentoso na argumentação . E querem saber? Morro de orgulho das discussões extenuantes que tenho com ele. MORRO de orgulho – porque ele aprendeu que é com argumentação infindável que conquistamos o respeito das pessoas e não com uso da força.

P.S.III – Apanhei do meu pai já bem mocinha. Apanhei feio. E a frase que ele mais ouviu foi: pode bater à vontade – você só faz isso porque perdeu e não sabe o que fazer. É, eu não era fácil né? :lol:

P.S. IV – Mais um texto para refletir sobre o assunto também da Rosely Sayão; também gostei desse aqui.

P.S. V – Para divertir e dar um “se liga” nos filhos menores, recomendo FORTEMENTE um livro chamado “ O dia em que mamãe virou um monstro” – meu filho olhava pra mim quando era pequeno e dizia: Mamãe, eu tenho medo da “cato horas”…

O livro contava um dia na vida de uma mãe, que lá pelas quatro horas…virava um monstro furioso, porque não aguentava mais aqueles pestinhas aprontando.  Imperdível (e muitíssimo instrutivo para nossos queridos rebentos, hehehe)

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EDUCAR DÁ TRABALHO

<parênteses> A Sam Shiraishi, minha conselheira de todas as horas nesse mundo digital que eu não entendo muito bem, conversando comigo no msn sobre educação falou pra eu escrever sobre o tema que estávemos discutindo. E não é que ela gostou tanto que publicou no blog Mães com Filhos?  Aliás, o blog é essencial praqueles que estão dentro do perfil, juro! Publico o texto aqui embaixo, mas eu não deixaria de conferir os debates no lugar original dele, aproveitando para passear um pouco por lá…</fecha parênteses>

Semana passada acabei lendo, graças a um  post da Sam Shiraishi, uma entrevista da Lúcia Guimarães (jornalista da qual sou fã) publicada no Digestivo Cultural e parei pra pensar num tema que eu sempre acho muito importante: o quanto adoramos meter o pau na televisão, no marketing absurdo que fazem em cima de crianças e adolescentes nos dias de hoje, na cultura de massa sem qualidade, sem que façamos um mea culpa, ou ao menos, sem que prestemos atenção nos atos que nós praticamos (ou não praticamos, pensando bem) para evitar comportamentos danosos ou a “ignorância da juventude de hoje”.
Explico.
Na entrevista, a Lucia abordou o tema da seguinte forma:

O outro problema é o da cultura consumida em guetos de geração. O adolescente consome cultura de adolescente. Na minha casa se ouvia Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Pixinguinha e Lamartine Babo (Beatles e até Black Sabbath quando meu pai não estava por perto). Ainda que você, como qualquer adolescente saudável, buscasse rebeldia nos livros e na música, a experiência cultural adulta entrava no seu sistema como vitamina e proteína, e você caía no mundo relativamente bem nutrido. Hoje a indústria de entretenimento trata a infância, a adolescência e outros segmentos de idade como um fim em si, estágios de vida congelados. As crianças e os jovens se isolam cada vez mais no quarto e têm tolerância zero para a conversa e o mundo adulto. (grifos meus).

Na sequência, contou uma história sobre a filha:

Uma vez minha filha chegou do campus de Boston no fim de semana com um amigo que cursava comunicação. Estávamos acabando de jantar; um grupo pequeno. Havia editores e escritores na sala. Ninguém mudou de assunto, é claro, para perguntar sobre a MTV. Eles sentaram conosco um pouco, ouviram em silêncio e, depois, minha filha me contou, comentaram entre si, espantados: que conversa inteligente, que pessoas incríveis. Não havia nenhum gênio na sala. Era como se os dois tivessem saído de um prédio abafado (o gueto jovem) e tivessem recebido uma lufada de ar fresco na cara.

Bom, vocês irão perguntar: qual é o ponto?
E eu vou responder: O ponto é que as pessoas hoje em dia parecem achar que tudo é como é e não há nada que possa ser feito para evitar o fluxo dos acontecimentos; as pessoas simplesmente parecem se esquecer que educar DÁ TRABALHO, E MUITO TRABALHO. Educar implica em planejamento; implica em pensar quais atos ou  comportamentos você deve ou não incentivar para formar um ser humano digno desse nome, e não mais um dos alunos do The Wall. Educar significa assimilar alguns comportamentos atuais e necessários para a diferenciação das gerações ao mesmo tempo em que se finca pé em alguns comportamentos, hábitos e atitudes das gerações anteriores, AINDA QUE ISSO DÊ UM TRABALHO DOS DIABOS, só porque achamos importantes que tais e tais [comportamentos, costumes, conhecimentos] são importantes, ainda que você tenha que ir contra o pensamento da maioria.
O bacana é que (ao menos sob o meu ponto de vista) a Lúcia  levantou um ponto super importante (a segmentação) ao mesmo tempo em que deu a solução para o problema. Não conheço a vida da Lúcia, evidentemente, mas pela bagagem cultural dela e pelo comportamento da filha (que chegou com o amigo, cumprimentou os presentes e ficou ouvindo a conversa) posso imaginar que essa filha não foi criada à base de Xuxa e afins; tenho quase certeza que  ela só conseguiu ficar lá naquela sala porque muito provavelmente, quando criança, fez coisa parecida; porque estava habituada a isso, ainda que depois tenha se distanciado ou passado mais tempo com o pessoal da sua geração (como deve ser mesmo, pois na adolescência temos que nos afastar da família para encontrarmos a nossa identidade).
Ou seja: é possível não deixar nossos filhos expostos apenas à cultura adolescente. Basta ter “vontade política”. Só isso.
Querem um exemplo?
Quando meu filho tinha uns 3 ou 4 anos de idade, cheguei à conclusão que, a menos que eu  tomasse alguma atitude, corria o sério risco de virar roomate dele ao invés de sermos uma família – e uma das coisas que decidi fazer àquela época foi ter apenas uma televisão na casa. Sim, isso mesmo!!!  Sabe pra quê? Pra gente brigar. É, isso mesmo que vocês leram: pra gente brigar – pois assim estaríamos interagindo, estaríamos tentando solucionar problemas de convivência ao invés de meramente dividirmos o mesmo teto.
A partir do momento em que se tem apenas uma televisão e 2 pessoas com interesses distintos, acontecem duas coisas:
a) existe uma discussão sobre qual programa é prioritário para cada uma das pessoas;
b) obrigatoriamente, a outra pessoa terá que assistir ao programa de televisão escolhido por você (sim!!! Tão pensando o quê? Que a criança vai pro quarto? Vai para o quarto somente  quando a programação é imprópria – porque quando não for, ela fica lá, bonitinha, quer queira ou não queira; o “querer” das crianças aliás é um outro tabu que precisaria ser reavaliado…).
O mesmo vale para a programação cultural.. Existem inúmeros programas culturais para crianças (muitos deles gratuitos), aos quais os pais interessados no desenvolvimento intelectual de seus filhos devem levá-los. A criança nem sempre vai gostar -  mas ela também não gosta de uma série de coisas que fazemos com elas  certo? Apurar o gosto de uma criança às vezes implica em acostumá-la a desenvolver determinados hábitos, e viver em sociedade implica em sermos tolerantes com o outro.
Meu filho (com 12 anos) até hoje reclama quando temos mais de um do que ele chama de “programa cultural” no fim de semana (sim, “programa cultural” aos fins de semana é matéria obrigatória aqui em casa – assim como algumas músicas, algumas comidas, alguns livros e alguns comportamentos; minha casa tem bibliografia básica). Reclama a ponto de quebrar paus homéricos antes de ir, para depois curtir (e aí eu choro de dar risada vendo a cara dele tentando dizer que gostou mais ou menos, só pra não perder a pose).
No entanto, quando estivemos na França ano passado, depois de um dia somente flanando por Paris (e tem coisa melhor?) ele falou:
- Mã, amanhã eu quero começar a ver as coisas.
Ou seja: ele queria ver a programação cultural e artística; ele estava interessado – e estava interessado pelo simples motivo de ter sido estimulado a isso, do mesmo modo que aprendeu a comer frutos no mar, ou um prato requintado, ou um p.f. caso estivéssemos em um local mais simples…
Vou falar uma coisa: eu às vezes confesso que fico um pouco irritada quando dizem que meu filho é uma criança privilegiada – porque não é. Ele é muito inteligente, interessado, bonito (eu sou mãe gente, dá licença de corujar minha cria?), mas sobretudo, foi muuuito estimulado para as coisas bonitas que uma vida cultural plena pode proporcionar ao indivíduo.
Não é difícil – mas dá trabalho. Me responde uma coisa: como é que você vai querer que seu filho leia se você não lê? Como é que ele vai achar a leitura uma atividade prazerosa se você não a acha igualmente prazerosa? Como é que ele vai se interessar por Billie Holliday ( ou ao menos saber quem ela é – ainda que a ache uma mala) se você não se dá ao trabalho de colocar uma música de fundo na hora do jantar ou no carro e fala sobre isso?Não, a culpa não é da nova geração ou do marketing, ou da TV; a culpa é nossa, que não nos esforçamos o suficiente para transmitir o conhecimento. História, música, geografia, política, matemática, teatro, poesia, literatura, física e química são assuntos, e não matérias- e é esse conceito que deveria ser adotado pelos pais.
Aproveito algumas palavras da Lúcia quando falou dos amigos dela para utilizá-las de outra forma: não precisa ser um gênio para desenvolver o gosto pela cultura; você não precisa ser a pessoa mais culta do universo, ou só falar de temas complexos com seu filho de 6 anos; basta só querer, basta só se dar ao trabalho – porque como tudo na vida, educar os filhos é uma questão de esforço, estudo e dedicação…

P.S. Meu pai adorava um papo cabeça. Vi “2001 uma Odisséia no Espaço ” num cinema detonado, na Baixa dos Sapateiros (sim, aquela da música ) num dia de semana à noite, durante o período escolar, com 9 ou 10 anos de idade. Lembro até hoje do meu pai falando daquele monolito, e da interpretação dele para aquela cena memorável em que o macaco aprendia a usar um osso como arma – ele tentava me mostrar a importância daquilo para a evolução da humanidade com uma emoção que até hoje, 30 anos depois, me toca. Lembro dele imitando as vozes das personagens do Sítio do Picapau Amarelo nas “Reinações de Narizinho” para despertar a curiosidade e o prazer pela leitura – e parar nas melhores partes, dizendo que se eu quisesse saber como terminava, eu que continuasse a ler. Lembro dele me ajudando a fazer trabalhos de história que eram complicados para mim, pois na minha casa não se admitiam enciclopédias, e ele preferia ler comigo textos complicados e explicá-los do que me ver copiando trechos da Barsa. Meu pai não foi uma pessoa fácil – mas se hoje recebo tantos elogios pelo meu filho, é a ele que devo parte deles… E agora vocês me deem licença porque lembrei que meu filho ainda não viu 2001… ;-)

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Pensando um pouco diferente sobre o caso Eloá

Eu pensei pra caramba antes de começar a escrever esse post.  Mas lembrando do que meu pai gostava de dizer – que eu não era “filha de pai assustado” (ele adorava falar essa frase), e que eu comecei esse blog para conseguir colocar pra fora o que eu pensava, tomei coragem.

Acompanhei muito de longe esse bas fonds todo. Na verdade, não sou muito fã dessas histórias policiais – até porque acho-as todas meio iguais. Além disso, sou um pouco blasé – pra mim crime passional é uma coisa que existe desde que o mundo é mundo, e não vai deixar de existir – então, para não parecer fria, prefiro não comentar o assunto.

Mas depois desse desfecho, não me aguentei, simplesmente tenho que falar.

Todo mundo já sabe que a Polícia agiu muito mal em várias ocasiões desse lamentável episódio, e se isso aqui fosse um país decente, cabeças estariam em vias de rolar.  Também questionam o papel e a influência da imprensa (conversa manjada né? afinal, a imprensa faz esse papel nojento – sim, nojento-, porque existem pessoas igualmente nojentas que gostam de ver aquilo. Por que chamam de nojento quem mostra, mas não quem gosta de ver, me explica? As pessoas poderiam ao menos assumir sua morbidez, ao invés de  posar de  Catões da República…).

Tenho realmente preguiça para falar sempre as mesmas coisas e repetir que nem papagaio o que já foi dito à exaustão; no entanto, tem uma coisa que eu vi muito pouca gente falando e merece reflexão:  que  esses pais têm uma responsabilidade enorme nesse episódio.

Respeito (muito) a dor que esses pais estão sentindo. Mas isso não me impede de pensar o tempo todo que eles foram negligentes. Sim negligentes; isso mesmo que vocês acabaram de ler. Pra mim faltou o famoso “você vai fazer intercâmbio” dos ricos e o “você vai para o interior” dos menos abonados, sabe?  Intervenção à moda antiga mesmo, sem choro nem vela.

Explico:

Essa moça começou a namorar esse rapaz quando tinha 13 anos, ele 19, quase 20. Ora, não estamos mais no século XVII; estão lá atrás os tempos onde moças de 13 anos eram casadas pelos pais –  hoje em dia são poucas as pessoas que se casam antes dos 20 anos.

Ora, aomesmo tempo em que o casamento foi postergado, as meninas não têm mais aquela (pretensa) aura de santidade e inocência – a descoberta da sexualidade, antes castrada, escondida (ou então aplacada com o casamento precoce), hoje mostra suas feições sem qualquer vergonha – e não tem que ter vergonha mesmo, afinal, é um fato da natureza. Então, está mais no que na hora de pararmos com esse papo cretino e hipócrita de falar que uma moça de 13 anos é um anjo inocente que não sabe o que faz, como cheguei a ler, certo?

Bom, e o que a gente faz com essa situação? Crianças literalmente entrando no cio (sim, isso é biológico), sem quaisquer condições psíquicas de lidar com isso, com um mundão aí fora dizendo que o amor é lindo e permite tudo (ah, se fosse assim…suspiros).

A gente fala : “ah, hoje em dia é assim mesmo, os jovens fazem o que querem, namoro começa cedo”, ou zela pelos nossos filhos? Zelar, educar, moçada, é exatamente atingir o ponto de equilíbrio onde vc oriente o seu filho sem impedir que ele viva as experiências necessárias para adquirir maturidade. Ponto de equilíbrio esse, diga-se de passagem, dificílimo de se alcançar.

Ora, você simplesmente não deixa uma moça de 13 anos decidir algumas coisas – muito menos namorar um cara 7 anos mais velho. Você proíbe. É, proíbe. Pro-í-be – esse palavrão que a sociedade não gosta de falar.

Meninas (e meninos) de 13 anos não estão maduros pra decidir (quase) nada. Já avançamos bastante ao termos consciência de que não podemos decidir o casamento de uma criança de 13 anos. Temos agora que entender que isso não é sinônimo de conceder um free-pass pra ela fazer o que ela quiser.

Há diferenças entre castrar e intervir, e em algumas situações intervenções são necessárias. Falamos de intervenção quando há o risco de um adolescente se envolver com drogas, mas não de se aprofundar em uma relação que pode ser perniciosa? Por quê? Porque amor é um sentimento nobre? Até é mesmo. Mas amor só surge quando estamos maduros – o que não se dá aos 13 anos, certamente.

Uma coisa é namorar alguém da mesma idade, outra coisa é namorar um cara muito mais velho. E nesse caso, repito, faltou intertervenção à moda antiga, que por vezes, é sim necessária (antes que me falem alguma coisa: eu sou daquelas que não acha desculpável ou necessário bater nos filhos, independente da situação. Bater em filho mostra somente que vc, o pai, perdeu o controle. Se seu filho for inteligente, vai perceber que vc não tem mais controle nenhum sobre ele a não ser a força física).

Acho que os pais devem, claro, deixar os filhos bater a cabeça, experimentar uma série de coisas, errar à beça – mas sempre monitorando essas experiências. Namorar, ficar, transar  é necessário, faz parte do amadurecimento da pessoa e os pais não podem (ou não devem) proibir tal evolução.

Mas, gente, é óbvio que há uma diferença muito grande entre uma menina de 13 anos namorar um rapaz de 15 anos, descobrir com ele sua sexualidade, desenvolver sua afetividade, e fazer isso com um rapaz  de 20! Com uma diferença de idade dessas, a relação não é horizontal, não é igualitária – e por não ser igualitária, permite desequilíbrios. Além disso,  ao permitir esse tipo de relação os pais estão contribuindo para que uma grande etapa da vida da menina seja “pulada” – será que isso é legal?

Educar é apontar a direção e aos poucos, deixar que os filhos escolham os seus próprios caminhos sozinhos (e a confiança com que farão isso será diretamente proporcional à certeza que estaremos lá os apoiando caso algo dê errado) – só que às vezes, se o caminho por eles escolhido é muito perigoso, a gente tem que puxar o freio. Sei que é fácil falar; me atrevo a dizer que o mais difícil na educação de um filho é acertar “o freio”.  Eu mesma, como fui muito “presa” a minha vida inteira, tenho conflitos horrorosos quando quero dar uma brecada no meu filho. Mas temos que fazer isso sob pena de sermos negligentes.

Quanto à Nayara, o caso é ainda mais grave. Onde é que esses pais estavam com a cabeça quando deixaram essa menina voltar pra lá? Podia ser o Papa, o Google em pessoa pedindo, eu jamais deixaria um filho meu voltar. Fui pesquisar e parece que os pais afirmam  jamais ter autorizado  a entrada da menina novamente ao local –  somente ao local para intermediar negociações (mais informações aqui). Bom, se foi isso mesmo, a Polícia está em maus lençóis.

Mas gente…

Helooooo??? Seu filho sai de um inferno desses, fica hospitalizado, e aí vc deixa uma criança abalada (sim, eu não preciso estudar 5 anos de Psicologia para saber que a menina saiu de lá abalada)  se meter no enrosco de novo? Por quê? Ingenuidade? Bondade demais? Ou será que também não deu uma vontadezinha de aparecer? Eu tinha me enfiado no meio do Mato Grosso se a polícia quisesse me obrigar a fazer uma coisa dessas – mas eu sou engoiabada, não conto…

Reconheço também que nesse caso, se a Polícia pediu para ela voltar, talvez os pais, por serem humildes, não tenham tido coragem de dizer não; o temor reverencial, aliado à bondade, pode ter sido uma combinação pra lá de nefasta – mas mesmo assim, só chegaremos a essas conclusões se analisarmos e ponderarmos os fatos, ao invés de repetirmos como papagaio as mesmas coisas de sempre né?

Eu quero deixar claro: não estou querendo condenar ninguém, e respeito a dor desses pais. E talvez, ainda que todas as precauções tivessem sido tomadas, tivéssemos o mesmo desfecho.

Mas acho  que a dor deles deve nos servir para alguma coisa – e eu gosto de pensar no que poderia ser feito para evitar tais situações. É através da análise dos fatos que conseguimos entender o presente e assim, com sorte, fazermos melhor, acertarmos na próxima. Já sabemos que a Polícia foi inepta nesse caso, e deveríamos (mas não vamos) pedir providências; já sabemos que alguns segmentos da imprensa não são exatamente modelos de comportamento ético, assim como as pessoas que as assistem; acho que não custa pensar também no papel que nós, pais, temos na educação de nossos filhos. E cá entre nós, é uma tragédia que comporta esse tamanho de reflexão, certo?

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Atualização em 21.10.08: Ufaaa!!! E não é que dá o maior alívio quando alguém “abalizado” pensa parecido com vc? Li o post da Rosely Sayão sobre o caso hoje, e fiquei feliz em ver que ela também pensa como eu… Leiam, porque vale muito a pena, ela faz algumas considerações interessantes.

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Método Lady Rasta de educar crianças v.2 – A história do ovo

Então…essa é uma daquelas histórias que vai deixar algumas pessoas meio nervosas… Eu moro no 16° andar de um prédio, e tenho uma sacada enorme. Mais um detalhe: minha sala tem janelas de alto a baixo. Só que…bom, eu nunca tive grades no apartamento, é isso.

Coisa de família sabe? Meu pai nunca fez isso comigo (ele era daqueles que ameaçava te jogar da janela, vc ficava com medo e não chegava perto nunca mais – não, eu não tenho medo de altura, mas…acho um método meio ogro, de qualquer forma), e eu sempre achei que não adiantava nada ter grade em casa se o mundo não tem grade. Não sei se ainda penso assim, mas perto dos 30 anos era assim que eu pensava.

Um dia, quando meu filho devia estar com uns 4 anos mais ou menos, peguei ele e a minha sobrinha debruçados na janela, sentados em cima do sofá. Bom, pensando bem hoje, devo ter ficado nervosa e tido um medão dos diabos né? Aíííííí…

Eu fiquei puta. Comecei a gritar com os dois muuuito brava:

- Os dois!!! Venham comigo pra cozinha. Agoraaaaaaa!!!!

Minha sobrinha (que era mais velha) se tocou que alguma coisa tava acontecendo, porque eu não sou de fazer isso. Meu filho me olhava tremendo (ele sempre teve essa mania de controle…não sei a quem ele puxou…). Continuei:
- Os dois!!! Em cima da pia!! Já!
Coloquei os dois em cima da pia. Abri a geladeira, peguei 2 ovos e dei um pra cada um. E muito brava, aos gritos:

- Eu quero que vcs joguem esse ovo no chão! Agora!!!! Agora!!!!Vamo gente!!! Não entendem português?

Os dois a essa altura estavam chorando pra caramba.

Os ovos caem no chão. E quebram.

E eu, ainda aos brados (juro, eu gritava muuito):

- Agora eu quero que vcs peguem esse ovo e consertem ele. Já! Senão, vão ficar de castigo! E não vai ser pouca coisa, já aviso!!!

Os dois continuavam chorando, me olhando meio desesperados, porque ninguém em sã consciência poderia achar que aquilo tinha conserto – e eu continuava gritando que queria os ovos consertados. Quando achei que já era suficiente, parei de gritar, olhei pra eles e falei:

_ Crianças, vcs entenderam? Algumas coisas não têm conserto. Se vcs caírem do 16° andar, vão ficar pior que o ovo. E do mesmo jeito que o ovo não tem como ficar inteiro de novo, não vai ter como consertar vcs. Então, dá pra vcs ficarem longe da janela? Abracei e beijei os 2 e aí foi a miiinha vez de ficar emocionada e chorar (eu choro até em comercial de margarina se deixar…)

Vou falar uma coisa: nunca tive problemas…

Ah! Sim! Eu tenho um amigo que fala que só a goiaba aqui ia ter uma idéia dessas em 10s…Não sei se é verdade. mas que eu acho uma boa história, ah eu acho…

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Veja também: Método Lady rasta de educar crianças v.1

Imagens:

Church Kids by Bitteorange at Deviantart

Fragile Egg by Aeonmistress at Deviantart

Egg by Tatsume at Deviantart

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