O Perrone tá tão errado assim?

É diferente de chamar alguém carinhosamente de “Negão”. Conheço gente que fala “uau, eu curto um negão, viu?”, do mesmo jeito que eu falo que tenho uma queda por morenos e não por loiros. Mas é diferente, né? O tom de voz e o contexto. Quando você quer “mexer”, vc não é “carinhoso”.
Não, você não é obrigado a gostar de alguém só porque ele é gay. Tem muito gay que não vale nada, assim como tem muito hetero que não vale nada e assim por diante, porque há pessoas que não valem nada, em última análise.
Eu fui péssina aluna de Direito Penal, então esses conceitos de calúnia, injúria e difamação são meio confusos (e é pra quase todo mundo, tanto que eles sempre andam em trio: “fulano vai processar beltrano por ‘ calúnia, injúria e difamação’ ).

<abre parênteses explicativo> se você não costuma passear na praça da República do Twitter, saiba que o assunto de hoje foi um post de jornalista da Globo que apesar de técnicas um tanto quanto primárias de argumentação, trouxe à baila um assunto interessante <fecha parênteses explicativo>

Em resumo (e colocando legenda num texto um tanto quanto confuso): há quem ache que a indignação ao ver usado o termo “viado” como insulto não passa de privilégio que gays estariam tentando  alcançar. Uma espécie de “tratamento vip”. Será que é isso mesmo? Descubra lendo a cartilha caminho suave de técnicas argumentativas a seguir 🙂

1. do método quintasserizante de argumentar e encerrar discussões

Cada dia que passa fico mais e mais chocada com a total falta de compreensão, por parte daqueles integrantes da “mídia”, do que seja uma rede social. Mais: que redes sociais, consistem em publicação de conteúdo, na acepção pura do termo, e o teor das publicações tem efeitos jurídicos. Além disso, a total falta de compreensão do que seja se portar em um local público com elegância me deixa estupefata, confesso a vocês.

Repito isso toda santa hora, dizendo que há um código de conduta evidente a ser seguido, mas falo ao vento – volta e meia as pessoas saem por aí dizendo que sofrer consequências pelo que foi dito é “censura” (ah, essa palavra banalizada que logo logo vai perder o seu sentido cruel).

Mas quando a gente não concorda com o outro chiamos né?

Hoje o alvo foi nosso Troféu Marcelino de Carvalho do mês, que além de pérolas da compreensão do comportamento humano como a abaixo,

 

 

(e não, não adianta vir com escumbelerrê dizendo que as frases foram descontextualizadas – é só ler a sequência de tweets, né? seria mais elegante pedir desculpas)

O autor ainda conseguiu utilizar métodos quintasserizantes de encerrar discussão como o seguinte

Então… Não pode. Além de feio, de ser falta de educação, pode ser tipificado como crime (nunca sei se é calúnia, injúria ou difamação, não entendo xongas de Penal, mas acho que é injúria). Como é crime uma série de outros comportamentos socialmente aceitos que um dia deixarão de sê-lo. É crime e comportamento socialmente reprovável da mesma forma que aquele jornalista da National Geographic utilizou sim (me desculpem os que pensam o contrário) elementos chulos e quintasserizantes pra manifestar seu deagrado, o que em tese poderia vir a configurar crime. Idem para a mocinha que xingou nordestinos e para o publicitário que passou dos limites ao torcer para o seu time. Os comportamentos são idênticos, só muda a gradação.

Não pode. Ou melhor, poder pode. Só não pode reclamar que é censurado quando sofrer as consequências do ato. Ou melhor, pode também – mas as consequências continuarão ali, é bom que se saiba 🙂

Regras sociais foram criadas para tornar a convivência suportável – e normalmente, quem não suporta a ideia de ser gentil com os outros rotula regras sociais de “hipocrisia”, podem reparar.

2. breve tratado da evolução do êxtase coletivo, das relações sociais e das ofensas

Sejamos honestos: em alguns pontos,  o texto tão criticado tem razão.

O principal argumento seria o de que tanto “viado” quanto “filho da puta”, dependendo da forma como são proferidos, poderiam em tese configurar crime de calúnia-injúria-difamação e sendo assim, não haveria porque condenar “viado” e não condenar “filho da puta” – isso seria um “privilégio” que gays estariam desejando alcançar.

Outro ponto tocado naquele texto é que “viado” não seria necessariamente “gay”; seria aquele comportamento mais exagerado, que associam normalmente ao gay cliché, estereotipado, discriminado até mesmo por alguns gays: é o comportamento da “passivona”, aquele comportamento xiliquento – que, admito,  muitas pessoas têm independente da orientação sexual, mas que é comumente associado aos gays mais afeminados.

Isso tudo é verdade. É mesmo um costume chamar gente exagerada de “viado”, eu mesmo por vezes me intitulo “veada” porque sou meio exagerada e tal. Mais: é até bem comum entre gays eles se insultarem dessa forma.

O outro argumento é que “antes não era normal xingar assim e agora é”; “sempre foi assim, por que mudar agora?”.

Até aí, zuzu bem. As premissas sobre as quais ele parte estão mesmo corretas. O que tá uma quizumba danada são as conclusões, as quais além de equivocadíssimas e dissociadas das premissas, ainda dão ensejo a um discurso claro de homofóbico tentando ficar no armário com toques de pseudo-sinceridade.

No entanto, a mim parece que escapa ao nosso exemplo-de-elegância-ao-argumentar que o mundo está em evolução. Sim, não adianta reclamar: por mais que nos choquemos com as crueldades ainda hoje perpetradas, ele hoje é melhor (ao menos no meu ponto de vista) do que era há mil anos atrás.

No tempo de Roma havia luta de gladiadores, eles lutavam com feras e o imperador decidia se ele viveria ou não; tivemos a época em que as pessoas iam à praça ver enforcamentos ou queima de bruxas.

 

era assim antes, por que mudou, hein?

Hoje isso melhorou: ao invés de gladiadores, vamos ao estádio e o êxtase coletivo é alcançado xingando o time e a torcida adversária; ao invés de queimar bruxas ou apedrejar adúlteras, assiste-se ao vídeo do Barraco Sorocaba e fala-se que “fulana é uma piranha”. Ao invés de processar um homem porque este manteve relações sexuais com outro homem, alguns só tiram gays à força do armário, porque eles não têm o direito de fazer sexo com outro homem sem emitir certificado de homossexualidade. Tá melhor, vai?

 

Era assim antes, por que será que mudou, hein?

Toda evolução tem certo processo: após este processo, um belo dia mulheres saíram para trabalhar de calças compridas ou passaram a querer votar, assim como passou-se a achar a escravidão desumana.Além disso, os movimentos acima não aconteceram simultaneamente (sequer ao mesmo tempo no mundo), mas sim em consonância com a condição dessas minorias.

Até hoje, mesmo no universo GLS, é normal você ver um gay reclamar do outro falando “mas você tá uma bicha chata hoje, hein?”, do mesmo modo que muitos falam “mas que viadinho que você tá”. No entanto, isso não significa que isso seja aceitável, ou desejável. Significa que eles também têm lá seus problemas de auto-estima e se auto-insultam (a desculpa é se fortalecer pra não sofrer quando a turba os chama assim, mas eu ainda aposto na baixa-auto estima de alguns).  E essa questão de auto-estima,  baixa em boa parte de homossexuais, advém, em boa parte, de comportamentos que agora passam a ser reprimidos, comportamentos como o descrito no texto e nos seus tweets.

Pois bem: chegou portanto a hora de os gays no Brasil começarem a não achar bacana ver um tratamento que os identifica ser sinônimo de insulto. Não tão curtindo mais. Ainda bem, né? Sinal que a própria comunidade gay está mais consciente dos seus valores, dos seus direitos e, porque não dizer, de sua própria identidade.

Ao dizer que acredita que o corpo não foi feito para determinadas práticas sexuais (como se fosse a prática de determinado ato sexual que caracterizasse alguém como gay, e não o desejo sexual por pessoa do mesmo sexo), o sentido dessa frase é : “você não é normal; você é esquisito, e eu vou xingar de esquisito todo mundo, pra provocar; para que a pessoa se sinta mal como você deve se sentir”.

Well, as bees não tão mais curtindo. Estão querendo “chamar a responsabilidade para si” e se apropriar do termo “viado”, dando um novo significado a ele. Simples como isso. Gays não tão mais na pegada de servir de diversão pro Imperador lutando com as feras. Imperador e sua turma vão ter que brincar de outra coisa.

Antes, todos morriam de medo de ser rotulados como “viado”. Ninguém era “viado”. Agora finalmente algumas pessoas pararam pra pensar: opa, mas por que eu tenho que rir quando insultam alguém com um termo que é associado à minha sexualidade?  Por que isso é uma ofensa e eu tenho que fingir que não é porque é “genérico”?

“Viado” era mesmo “uma forma de mexer e só”. É a mais pura verdade. Mas era uma forma de mexer associando a insulto um determinado comportamento, fazendo com que aqueles que têm tal comportamento se sintam inferiorizados. É por isso que fica chato quando você, por um acaso, mexe com alguém que efetivamente tem esse comportamento. É por isso que ficou chato no caso do volei, e ficou chato no caso do Richarlyson. Não fica chato porque “parece ser ofensa”, fica chato porque finalmente se compreende que aquilo está sendo utilizado como uma ofensa. Fica claro que o comportamento daquela pessoa é visto como reprovável (ou anti-natural). Caso contrário, por que mexeria, né mesmo?

 

Então, do mesmo jeito que antes se podia falar “seu criolo nojento” e agora não pode mais, não é mais de bom tom xingar as pessoas de “viado”, ainda que eu compreenda a diferenciação entre “viado” e “gay” feita no texto. Porque na real, como disse o Max, a gente não tem o direito de esculhambar uma pessoa só porque ela é over. Este pode até ser um componente irritante (eu não gosto, pra ser sincera, advenha ele de gays ou de heteros – ah, não sou perfeita, né?), mas a partir do momento em que isso está ligado ao bem estar da pessoa e à auto-estima dela, é de bom tom que pessoas civilizadas, educadas e aptas ao convívio social não utilizem o termo como insulto. Simples assim.

 

Qual o limite disso? Eu não sei. Também me preocupa o limite do politicamente correto, porque sei que uma das formas de se lidar com preconceito é também expô-lo através do humor. Eu pessoalmente não entendo e não curto isso (gosto de muito pouca coisa tida como “humor”) mas sei que existe esse mecanismo. Achar o ponto de equilíbrio sempre é muito difícil, e vamos ter que achá-lo. Mas enquanto não achamos, é de bom tom que sejamos cortezes uns com os outros e que respeitemos modo de ser de cada um.

E novamente tenho que dar razão ao texto: daqui a pouco, algum juiz vai reclamar de ser chamado de “filho de puta”, e não se poderá mais fazer esse tipo de coisa. Politicamente correto demais? Alguns dirão que sim, mas a mãe dos juizes e as prostitutas certamente agradecerão. Desde quando alguém ser filho de prostituta é demérito? Aproveita então, viu? Por que já já não vai rolar 🙂

<abre parênteses> Tem um porém nessa equação toda: como disse essa semana, o ser humano tem violência dentro dele e não é bonzinho. Essa forma de extravazar impulsos, desejos e emoções xingando os outros vai ter que sair por algum outro lugar para não termos problemas sociais complicados. Resta saber qual será. Espero que encontremos um caminho. </fecha parênteses>

Voltando e pra encerrar o assunto: uma vez, perguntei ao meu filho se ele seria amigo de um colega gay que estudasse com ele. Ele respondeu: “depende, Mã. Só seria amigo dele se ele fosse legal”. Respeitar é isso. É ver a pessoa e ver se aquele conjunto específico agrada ou não,  ao invés de decidir se vai gostar dela ou não porque ele faz parte do grupo X ou Y. O que alguns chamam de “tenho que respeitar mas não preciso gostar” não passa de homofobia envergonhada. Lamento, mas não tem respeito nenhum aí. Melhor admitir que não se sente bem entre eles – é normal e humano, ué. Eu também não me sinto bem em alguns grupos  🙂

****

P.S. Folks, posso pedir uma coisa? Por amor ao quesito “originalidade” numa argumentação? Vamos parar de usar clichés? É tããão cansativo tudo ser “reaça”, tudo ser “fascista”… Esses termos estão perdendo força de tanto que são (mal) usados. Bora se esforçar? Plis? Fica feio a gente reclamar de um pessoal por aí e fazer o mesmo. <3

 

 

 

Gays e Tribunais: a estrada para o casamento

Há uns meses atrás tive a honra de ser convidada para madrinha da oficialização de um relacionamento de 25 anos entre dois homens. Sabem como eles formalizaram? Assinando um testamento. É, isso mesmo: a gente comemorou em cima de um documento que dizia o que iria rolar se um deles morresse. Eu diria que é uma forma diferente de se estourar champagne, né?

O mais curioso é que  há uns 30 anos atrás, a situação não era muito diferente quando você era desquitado e decidia ir morar junto ou casar com outra pessoa; muitas famílias não recebiam em suas casas “mulheres desquitadas”, muito menos casais formados por desquitados. Os filhos eram estigmatizados, e quando o casal adquiria  bens  comuns era necessário um enorme trabalho criativo por parte dos advogados para conseguir contornar a proibição de um novo casamento: uma delas era a constituição de empresas entre o casal onde integralizava-se o capital da empresa com bens das pessoas físicas. Depois disso estabeleceu-se o conceito de sociedade de fato, onde em uma vara cível (ou seja, em um juízo não especializado em direito de família, pois de família a rigor não se estava tratando, segundo entendimento da época) definia-se que aquelas duas pessoas tinham se unido não para constituir família ou porque laços de afeto existentes fizeram com que eles se juntassem, mas sim para “constituir patrimônio”. Bacana, né?

Depois dessa fase, apesar dos brados dos conservadores, os quais afirmavam que “o divórcio iria acabar com a família brasileira” (qualquer semelhança com um Bolsonaro da vida não é mera coincidência), veio a lei do divórcio.

E por que eu estou contando tudo isso? Porque eu vejo muita similitude entre o caminho percorrido pelos casais heterossexuais que queriam o divórcio para poder casar novamente e os casais homossexuais que desejam ter o direito de se casar. Está evidente para mim que o Poder Judiciário exerceu um papel importantíssimo aplainando a trilha onde passaria o divórcio da mesma forma que aplaina hoje o caminho para permitir no futuro, a união entre pessoas do mesmo sexo – e queria contar pra vocês em que pé nós estamos, em decorrência de um julgamento importante que começou hoje no STJ, e adiantar algumas “cenas dos próximos capítulos” 🙂

1. STJ e a União Estável

A 2a Seção do STJ iniciou julgamento de caso versando sobre união estável entre pessoas do mesmo sexo (vale ler essa matéria aqui, com um bom histórico da evolução das decisões sobre o tema). O julgamento foi interrompido porque um dos Ministros do STJ pediu vista dos autos (<abre legenda para civis> levou o processo para casa para estudar e pensar </fecha legenda para civis>).

Quando da  interrupção, tínhamos 4 votos a favor da possibilidade de união estável entre pessoas do mesmo sexo, e 2 contra, faltando ainda o voto de 4 ministros ( o Presidente só vota em caso de desempate). Aguardemos.

foto extraída do site do STJ, sem autoria especificada

Voltanto àquela linha comparativa entre o divórcio e a possibilidade de homossexuais poderem se casar, esse julgamento é a passagem entre o reconhecimento da sociedade de fato e a união estável de ordem, digamos, afetiva. Tal como outrora entre casais heterossexuais, os gays apenas têm reconhecida a sociedade de fato – uma coisa ” a gente se juntou pra formar patrimônio, it’s business, not love” –  e o julgamento de hoje sinaliza que tal entendimento está em fase de mudança.

Hoje, um dos Ministros que votou a favor da união estável entre gays ressaltou o que menciono nesse texto. Segundo o site do STJ, o Ministro João Otávio de Noronha “afirmou não haver nenhuma proibição expressa às relações familiares homossexuais, o que garante sua proteção jurídica. Noronha destacou que os tribunais brasileiros sempre estiveram na vanguarda internacional em temas de Direito de Família, além do Legislativo. Ele citou como exemplo o reconhecimento dos direitos de “concubinas” em relacionamentos com “desquitados”. Para o ministro, a previsão constitucional de família como união entre “um homem e uma mulher” é uma proteção adicional, não uma vedação a outras formas de vínculo afetivo” (grifos meus).

É importante deixar claro que, em sendo favorável, a decisão que for proferida não significa que daqui pra frente pessoas do mesmo sexo poderão ter sua união estável reconhecida; significa apenas que as chances de se obter isso judicialmente subiram incrivelmente. Aguardemos pois o julgamento desse caso – espero que as notícias sejam boas 🙂

2. STF está para julgar ação sobre união estável

Como eu disse, não dá pra passar desapercebido que o Poder Judiciário tem abordado esse tema de uma forma bastante assídua. Além do julgamento do STJ já mencionado, no STF está para ser apreciada ação chamada “Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental” que pode vir a permitir o reconhecimento da união estável para os casais gays. Referida ação foi inclusive objeto de várias matérias no meio LGTB, não só alvoroçando o pessoal mais interessado no assunto como também confundindo um pouco, à medida em que alguns textos (como o linkado acima) falam de ação proposta pelo Governador Cabral do Rio de Janeiro em favor do “casamento gay”, quando não é de casamento que estamos falando.

Então, aproveito o gancho do julgamento de hoje para falar sobre o tema e colocar alguns pinguinhos nos “is” quanto à ação que está no STF (reiterando que mesmo um julgamento favorável hoje no STJ será apenas um indicador potente, notícia excelente, mas não valerá para todos).

2.1. Que ação é essa?

A ação chama “Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental” (esta, especificamente falando, pode ter sua inicial lida na íntegra aqui).

Como o próprio nome diz, é proposta quando algum (aha!!) “preceito fundamental” é descumprido. Não há na lei uma definição do que seja “preceito fundamental”, mas na ação  há um trecho em que isso é abordado de forma bem clara, deem um’olhada:

Se a gente ler o comecinho da ação (juro que dá, viu? vem, gente!) vai entender tudinho o que eles querem, alá:

Mais à frente, a ação explica de leve porque é importante que duas pessoas do mesmo sexo possam ter reconhecida sua união estável ao invés de sociedade de fato (que é a “saída” que vem sido utilizada pelos nossos Tribunais atualmente, como mencionei ao falar do julgamento do STJ) :

Percebem a semelhança? O mesmo caminho percorrido por aqueles que eram desquitados e constituíram novo núcleo familiar está sendo trilhado pelos gays hoje em dia: primeiro passaram pela fase em que a união era reconhecida como “sociedade de fato” para, depois de muita pressão e os costumeiros brados beatos de que “o divórcio iria acabar com a família brasileira”, bla bla bla, conquistarem o direito de se casar novamente. Tenho a impressão que estamos na mesma estrada: decisões judiciais pipocando aqui e ali, cada vez mais próximas do desejável, até que algum projeto de lei consiga ser aprovado. Aguardemos o resultado dos julgamentos, né?

2.2. Gays vão poder se casar caso a ADPF 132 seja julgada procedente?

Na verdade, como eu já disse, não estamos tratando de casamento gay, mas sim de uma extensão do conceito de união estável, prevista na CF, aos homossexuais. Ou seja, com essa equiparação, os casais formados por pessoas do mesmo sexo vão poder ir a um cartório e dizer que moram juntos, e essa declaração terá efeitos jurídicos imediatos.

2.3. Vai valer pra todo mundo?

Há controvérsias. Segundo o Conjur, nos autos da ADPF há parecer da Advocacia Geral da União afirmando que os efeitos dessa decisão valeriam apenas para o Estado do Rio de Janeiro (não sei se para residentes ou para os cartórios).  Por causa dessa dúvida, quando ocupava interinamente o cargo de Procuradora Geral da República, Debora Duprat  propôs ação similar (ADPF 178) , pedindo a sua distribuição por dependência (<legenda para civis> pedindo para a ação correr junto com a outra ADPF, em razão da similitude </legenda para civis). Após o julgamento eu terei condições de ser mais específica quanto a isso.

2.4. Na prática, o que isso significa?

Como não milito na área de direito de família, pedi para a Dra. Daniela Assaf (aka @danielaaf no twitter)  esclarecer o que muda na prática caso essas ações sejam julgadas procedentes. A Revista Veja também fez um quadro sinótico interessante e bem claro sobre o assunto, vale consultar, viu?

Disse a Daniela Assaf:

A sociedade e os Tribunais estão se antecipando ao Estado e estão regulamentando o que , na prática, já existe há anos. Mais importante, estão fazendo com que os cidadãos que são discriminados  pela orientação sexual finalmente tenham os direitos previstos no artigo 5º , da CF, ou seja, ‘ todos são iguais perante a Lei, sem distinção de qualquer natureza‘” .

A Daniela também apontou o que já foi alcançado até hoje, através de decisões de muito bom senso esparsas que, aos poucos, estão pavimentando o caminho para permitir uma situação mais confortável aos homossexuais:

Uma portaria do INSS reconhece o direito à pensão entre casais do mesmo sexo. A portaria 513 da  Receita Federal permitiu que  a partir deste ano os contribuintes alterassem as declarações dos últimos cinco anos e incluíssem o companheiro (a)  como dependente. Igualmente, inúmeras empresas já reconhecem o direito ao plano de saúde no caso de casais gays” .

Importante ressaltar: com a possibilidade de se reconhecer a união estável entre pessoas do mesmo sexo, não serão necessárias essa série de normas autorizantes – o processo será automático, como é com qualquer casal heterossexual.

Daniela continua a explicar:

Atualmente  vários casais homossexuais podem adotar legalmente filhos, brigar pelo direito à herança , à pensão alimentícia, à guarda dos filhos e à partilha dos bens, mas com muitos percalços. Com o reconhecimento da possibilidade de haver união estável entre pessoas do mesmo sexo, isso será simplificado.

Discorrendo sobre o julgamento que se iniciou hoje, Daniela ressaltou que ele é “de suma importância, demonstrando que os Tribunais, como no passado, estão criando direitos que não são reconhecidos em Lei.
Ressalvo que o Juiz do Rio Grande do Sul foi corajoso e avançado ao admitir que a ação corresse numa Vara de Família.” .

É isso. Espero sinceramente que tenhamos um final feliz, e que um dia eu possa comemorar a união de amigos queridos sem precisar ser testemunha da assinatura de um testamento. E terei o maior prazer em lembrar que o Poder Judiciário contribuiu para isso. Aguardemos cenas dos próximos capítulos, né?

Nunca chove na terra do arco-iris

Eu sou uma daquelas que detesta aqueles clichês de que “gay é sempre alegre, está sempre pra cima, bla bla bla”, porque pra mim eles remetem a estereótipos eivados de preconceitos (a história do “amigo gay” que eu falo sempre, como se amigo gay fosse um item do closet que toda deslumbrada deveria ter).  Gay é gente, e como tal, tem momentos tristes, alegres, atitudes boas e más como todos nós temos, e não um “amiguinho de coleção” ou de estimação que procuramos quando precisamos “ser colocadas pra cima” (gente provinciana assim deveria pagar adicional de imposto de renda, juro).

Mas tenho que admitir aqui um cliché por força das circunsâncias:  a Parada Gay é iluminada e abençoada pelos céus. Não me lembro de um dia em que ela tenha ocorrido aqui em São Paulo num dia nublado ou chuvoso; é sempre um céu divino, azul de brigadeiro (o oficial, não o doce, bien compris :lol:). Hoje não foi diferente: depois de dias frios e chuvosos nesse feriado de Corpus Christi, eis que o dia amanhece divino e ensolarado, como sói acontecer em todos os dias da Parada.

Uma pessoa querida outro dia disse ter ficado muito triste ao ver, na memorabilia de um parente já falecido, fotos de companheiros dele que ela não conheceu, não chegou a partilhar da intimidade, das alegrias e das tristezas, em razão do preconceito que nunca permitiu uma saída total do armário por parte daquele parente na família. Triste, né? Não gostaria que um filho meu passasse por isso. Espero que vocês também não.

Então, por causa das situações como a que descrevi acima (muito mais comuns do que vocês imaginam) vai aqui meu salve e o meu respeito pra todos aqueles e aquelas que um dia tiveram que guardar em caixas dentro do armário suas fotos com namorados ou namoradas; praqueles que em churrascos de família têm que ouvir, por estarem sozinhos, mais uma vez “e as namoradas?” e se calam para não ter que lidar com a reação que adviria de um “eu gosto de meninos”; praqueles que têm que disfarçar no trabalho suas preferências sexuais por medo de não conseguir aquela promoção; praqueles assumidos que namoraram pessoas no armário anos, e sofriam por isso mas entendiam em razão do sentimento que nutriam pelo parceiro; praqueles que precisam beber quase até cair para conseguir admitir pra si próprios que o seu objeto de desejo é do mesmo sexo que eles; pras travas que os caras casados procuram voltando do trabalho e que por vezes são maltratadas justamente por consistirem no objeto de desejo desses caras. Espero de coração que um dia a vida dessas pessoas possa ser ensolarada e às claras  em todos esses aspectos e não só no dia da Parada Gay.

E pra você que não admite esse direito aos gays, ponha a mão na consciência e ouça as palavras mais bonitas que já ouvi sobre o assunto, ditas em cadeia nacional por Ketih Olbermann, âncora da MSNBC, quando a Proposition 8 foi aprovada:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=W4xfMisqab8]

Se você não fala inglês, leia a tradução aqui.

E que todos nós paremos pra pensar que enquanto for necessário um dia específico pra lembrar à sociedade que determinadas minorias são pessoas e têm os mesmos direitos que nós, ainda há muito a ser feito.

Um bom domingo ensolarado com arco íris no céu a todos.

As Drizelas e Anastácias da Cinderela Gay

A @fatorell me mandou post da Ruth de Aquino sobre  livro lançado recentemente que se pretende um guia para moças “detectarem” gays.  A obra é recheada de uma quantidade tal de absurdos, lugares-comuns e clichês de esquetes baratos de programas de televisão que realmente não consegui ficar quieta; preciso dividir minha indignação com vocês.

Segundo Ruth Aquino, as autoras resolveram escrever o livro porque

“Muitas mulheres já caíram em armadilhas sentimentais com gays que não se assumem publicamente. Elas se encantam com um homem numa festa, num jantar ou na praia e, de repente, descobrem que o time dele é outro. Se for assumido, é fácil, porque o assunto virá à tona num trejeito ou numa confissão sincera. E se for enrustido? Aí, pode complicar. Muitos apelam para ser bi. Outros casam com uma mulher e podem se esconder a vida toda, mesmo a um custo alto”. (grifos meus).

Estou mais do que acostumada a ver pessoas escreverem sobre assuntos que desconhecem por completo, mas dessa vez foi demais; só o parágrafo acima demonstra (na minha modesta e humilde opinião, evidentemente) como as autoras são cruas em relações humanas e sexualidade.   Afirmar que o “assunto virá à tona num trejeito” é um dos maiores absurdos que já ouvi, porque parte da premissa que todo homossexual faz trejeitos. O mesmo quanto à afirmação “muitos apelam pra ser bi”. Não sei por onde essas pessoas têm andado, sinceramente…

Então, porque me indignei, fiz questão de ressaltar aqui os “piores momentos” da leitura da resenha (não, não li o livro – e tenho medo de ler e querer escrever um tratado sobre a estultice alheia); divirtam-se (e sobretudo, pensem):

gay tem que assinar protocolo de intenções ao se relacionar com uma mulher

Bom, pelo que li, é isso mesmo: gay tem obrigação de contar suas preferências sexuais ao conhecer uma mulher assim que perceba que ela  interessa por ele.

Sério, não sei daonde as pessoas tiram que homossexual tem que sair por aí bradando aos 4 cantos da terra que sente atração por pessoas do mesmo sexo. É a mesma coisa, grosso modo, que eu sair por aí (ou melhor, sua mãe) dizendo quais as minhas ( ou da sua mãe) posições sexuais preferidas. Não orna, né? Não precisa. É muita informação. Pois bem: se a gente não faz isso, porque os gays precisariam fazê-lo? Ele fala se quiser. Ponto.

“Ah, mas ele sai comigo, me liga direto e não quer nada comigo e isso não é justo, porque eu não sei de nada”. Ué, por que não é justo? Se você estiver incomodada, diga o que pretende. E não, ele não tem obrigação nenhuma de dizer pra você que é gay. Ele pode simplesmente dizer que você  não o atrai, como qualquer outro homem que não se sinta atraído por você diria (aliás, ele não está mentindo, convenhamos).

Claro, eu também acho  mais confortável que o homossexual se sinta à vontade para falar sobre seus objetos de desejo; inobstante, isso não é obrigatório, é questão de foro íntimo; ninguém tem a obrigação de fazer um disclosure para que virgenzinhas incautas não se iludam e caiam de amores por ele. Alguns dirão: ah, mas e se eles iludirem as moças, as enganarem? E eu direi que isso é muito improvável, e que as moças querem lidar com a frustração delas usando a homossexualidade como justificativa ao invés de aceitar um mero “ele não está a fim de você”.

Convenhamos, só há duas hipóteses possíveis aqui: ou ele está agindo como um amigo que não faz, digamos, “avanços” em sua direção (e portanto, em nada difere de um amigo heterossexual que não sente atração por você -ou não quer uma relação carnal com você, coloquemos assim) ou então ele…hummm… conheceu a moçoila no sentido bíblico de modo assaz satisfatório e portanto, não sei realmente do que ela poderia reclamar, não acham? Caso em que as autoras fariam o comentário a seguir…

Bissexual é que nem o homem do saco: não existe

Com todo o respeito, quando fala dos bissexuais (e de como detectá-los, e de como eles não existem), as autoras parecem parentes das irmãs Cajazeira (aliás, acho muito engraçada essa história de detectar bissexuais – parece que eles  conspurcam a sociedade, :lol:).

São taxativas:   “não existe bissexual, eles são sempre gays no armário, todo gay fala isso”.

Ora, pra mim é óbvio que todo gay fala isso: é interesse “deles” ! Falo isso porque já presenciei cenas de gays tolhendo tais desejos – e nem são todos que falam isso, aliás… A verdade é que há um super preconceito contra o bissexual, porque eles teriam a obrigação de se “definir”. Olha, eu até entendo que haja maior ou menor inclinação por este ou aquele sexo, mas de uma vez que o cara é bacana, te proporciona uma relação bacana e não parece ter problemas com isso, qual é o problema (além, va lá, de você passar a ter ciúme de toda a população da Terra ao invés de apenas metade dela, :lol:)?

Mas pra mim as autoras são extremamente preconceituosas quando falam que  “muitos apelam pra ser bi”. Como assim muitos apelam pra ser bi? Desde quando isso é crime? Desde quando isso é uma atitude condenável? Mas que jequice, Deus meu!! Quer dizer que o cara transa com a menina, ela gosta, e ainda assim ele é um ser indigno? Juro, eu simplesmente não entendo.

O mais divertido, no entanto, é a “justificativa” para que o gay consiga “preencher as condições de sexo satisfatório”: ”

“Bissexualidade masculina existe? Para a “Sophia”, consultora super radical do livro, não existe. Os gays assumidos concordam. O homem “bi” seria de fachada. Na verdade, a fissura do enrustido seria sempre por outros homens. “O gay de armário fica noivo, casa, e transa com mulher. Mas é como gostar de chocolate sem ser chocólatra. Ou seja, alguns cumprem o papel direitinho, mas burocraticamente”.

Hummm… Peraí: uma pessoa chocólatra (termo que denota vício e falta de controle, salvo melhor juízo) é o equivalente a uma pessoa que faz sexo de maneira satisfatória? Estranho…E vem cá… se alguns cumprem o papel direitinho, mas burocraticamente, porque a parceira não reclama? Estranho de novo,  nénão?

E daonde elas tiraram que sexo com um bissexual é “direitinho e burocrático”? Sério, definitivamente, essas moças tiveram muita pouca sorte na vida, porque as minhas impressões sobre o tema são diametralmente opostas…

Dirão alguns que muitos bissexuais escondem sua condição e traem suas mulheres com homens; eu diria que esse procedimento é lamentável, desprezível, mas não porque ele saiu com um homem, mas porque foi desleal (tão desleal quanto os caras casados que passam cantadas em mulheres e são infieis, ressalte-se);  a análise que se deve fazer aqui é do caráter, e não do objeto de desejo da pessoa. O cara é desleal porque lhe falta caráter, não é desleal porque é bissexual. Não é possível que as  pessoas não enxerguem isso.

Essa vibe “depoimento Marie Claire” de “meu marido me trocou por um homem” – centro da trama do livro – é a coisa mais anos 50 que eu já vi (ou 70, quando a dona de casa surta com o marido que resolveu levar a sério o “toda forma de amor vale a pena”). Pensem comigo: você foi trocada. Tomou o maior pé na bunda do planeta. Em que faz diferença se a pessoa escolhida pelo seu ex-parceiro é do mesmo sexo que você ou não? Eu respondo: em nada (eu aliás, preferiria ser trocada por pessoa de sexo diferente do meu…).

Tal linha de raciocínio mostra inclusive uma baixa-auto estima atroz. Digamos que a relação fosse bacana, sexo legal, o cara sempre tenha sido companheiro etc. Acabou porque acabou, porque tudo na vida acaba. Quer dizer que se ele te trocar por outra mulher tá tudo certo, mas se ele te trocar por um cara é sinal de que tudo isso foi de mentira? Sério, não entendo essas pessoas.

Conselhos como esse privam (ou podem vir a privar) as pessoas de viver coisas muito legais. As autoras deveriam pensar nisso antes de sair por aí regurgitando fórmulas mágicas de normalistas dos anos 50.

Gay tem código de postura municipal

As pérolas não param:

“Como perceber antes de se apaixonar? Ou até casar?“Já tive paqueras gays”, conta Ticiana. “Um sinal óbvio é quando o cara começa a contar uma história, de uma viagem, e um hotel em que ele estava com ‘uma pessoa’. Não é uma namorada, ou a mulher, nem mesmo um amigo. É ‘uma pessoa’. Aí, pode ter certeza, é gay”.

Olha, não entendo xongas de linguagem, linguística, métodos de comunicação, mas de uma coisa eu sei: quando todo mundo fala “a minha ex-namorada” e um cara fala “uma pessoa”, a menos que você esteja falando com uma normalista dos anos 50 (aha!!) me parece bastante óbvio que a pessoa está sim, sendo honesta com você e mesmo dando abertura para a pergunta “essa pessoa era um cara?”.

No post da Ruth Aquino há uma sequência de dicas que miram um segmento muito específico do universo gay, e que de forma nenhuma representam sua totalidade.

Convenhamos, dizer que homem que toma caipirinha com adoçante é gay é a mesma coisa que dizer que todo hetero vai pro Carnaval da Bahia, caso contrário é gay (atenção, heteros de raiz que estejam lendo este post e detestem Carnaval: digam EU!! \o/ :lol).

Conheço vários “hetero de raiz” que detestam futebol; por outro lado, conheço muitos gays que não perdem um jogo do seu time predileto, inclusive nos estádios. Também conheço muitos homens hetero que adoram grifes, assim como conheço gays que detestam gastar dinheiro com roupa. Esse tipo de “dica” chega a ser um insulto à inteligência de quem as lê, sério.

A mim parece  que as autoras só conhecem gays de “ouvir falar”, ou no máximo têm “o meu amigo gay” (expressão que mostra igualmente o preconceito, a meu ver), daqueles bem estereotipados. As pessoas teimam em confundir homossexual com o estilo de vida de uma parcela de gays de certa forma responsável pelo conceito de “cultura gay” que sequer representa sua maioria. Há gays que são abstêmios por exemplo. Há gays que jamais usariam uma roupa de ginástica justa na vida (aliás, pasmem, ah gays que odeiam ginástica e têm barriga de cerveja, acreditam? ooooohhhh :-0 )

Vou repetir até morrer de exaustão: o que faz de uma pessoa homossexual é o fato dela sentir desejo sexual por pessoa do mesmo sexo – não a marca da sunga, o carro ou o bairro em que vive. É simples assim (aliás, bem menos complicado que decorar um hipotético código de posturas municipais de comportamento, não acham?).

Em resumo: com todo o respeito que posso ter às autoras (ou ao menos, ao direito que elas têm de escrever o que bem entendam), o livro me parece um amontoado de equívocos.

Até admito que elas pudessem fazer um guia de ajuda para identificar aqueles caras que tentam viver dentro do armário (embora isso me pareça meio policialesco demais) – mas com outra abordagem (que ao menos fosse mais eficaz, convenhamos). Sim, existem gays que estão no armário e se escudam em mulheres para manter sua imagem; mas normalmente essas relações são muito mais complexas do que um manual de auto-ajuda (e todos nós sabemos que pra alguém ser algoz um outro tem que se dispor a ser vítima, certo?;-)

Detesto essa coisa do politicamente correto, mas gosto muito de bom senso. E certamente não é medida de bom senso dizer que é o fim do mundo ser trocada por um homem ao invés de ser trocada por uma mulher, ou que “bissexuais não existem”, ou que todo homossexual uma hora solta um trejeito. Isso é um desserviço – pra não dizer que é mentira…

A sexualidade humana é cheia de nuances – até porque o desejo também é assim; não dá pra generalizar. Há casais que vivem relações abertas, outros vivem relações assexuadas (Cole e Linda Porter são um belo exemplo de como isso é verdadeiro); há pessoas que vivem em trios (sim, em trios, e muito bem – not my kind of town, mas acontece); há cross-dressers (e parece que grande parcela deles é hetero); enfim, é um universo grande demais para que se o reduza aos lugares comuns mencionados no livro. Longe de esclarecer, o livro vai deixar a cabeça das mocinhas que o lerem ainda mais confusas quando estas se depararem com a realidade do mundo, acreditem.

Querem saber? Eu tô achando é que as autoras do livro na verdade são as irmãs menos esteticamente privilegiadas  com inveja da Cinderela porque ela é linda :-

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P.S. : Eu sei que os profissionais da Psicanálise talvez tenham uma visão diferente sobre bissexualidade, a depender da corrente doutrinária adotada. Só queria deixar claro que me ative à parte prática do problema, digamos assim.