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Frechadas merecidas e imerecidas no “Livro do MEC”

Confesso que eu mesma fiquei contra o livro, o MEC e quem mais se dispusesse a defendê-los no início da polêmica, tendo em vista que estes estariam preconizando não haver mais “certo ou errado na Língua Portuguesa, e que doravante iria rolar um liberou geral”. No entanto, conversando (obrigada ao Doni e à Mahayana), pesquisando e pensando um pouco, refiz meu juízo de valor, o qual basicamente hoje consiste no seguinte:

O jeca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês; diz, por exemplo, “as casa”, “os home”, “as muíé”, em vez de dizer redudantemente como o português, “as casas”, “os homens”, ” as mulheres”. O inglês diz “the men”, “the women”, “the houses” – a mesma coisa que o jeca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? pensa com muita razão o jeca e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.” (Monteiro Lobato, tirado do post do Sergio Leo que merece leitura integral)

1. Livro NÃO diz que é certo escrever errado

Na verdade, o que o livro (tenta) dizer é que há diversas formas de se falar ou escrever algo, como se existissem (como de fato existem) diversos dialetos dentro da Língua Portuguesa (o que escrevemos na internet e no sms, com várias abreviações, ou e-mails informais, onde “vc” é algo corriqueiro, assim com “fds”). Guimarães Rosa também sempre escreveu dando um toque de regionalismo a seus textos, e o paulistês das músicas de Adoniran Barbosa é famoso. Aquela forma de falar tem toda uma lógica, como bem ressaltou Sírio Possenti em artigo pra lá de didático.

Ficaram muito bravos comigo quando relacionei a questão “os livro” e “os livros” com o sinal conhecido para finalizar as refeições, mas continuo achando ele bom: a forma de se sinalizar o final de uma refeição é deixando os talheres sobre o prato; no entanto, pessoas “educadas” sabem que jamais, nunca, em nenhuma hipótese, você coloca os talheres em “x”; eles “devem” ser colocados em paralelo (há uma divergência se eles podem ser colocados de forma parela ou formado ângulo de 90o com a mesa, mas isso é preciosismo   :-p)

A maioria de vocês dirá: ah Flavia, isso é uma idiotice, o importante é mostrar que se está satisfeito e encerrou a refeição! Poizé, o mesmo dirão aqueles que escrevem “os livro”: dá pra entender perfeitamente que aquilo é um plural, pra que tanta bagunça com o assunto? Eu hein?

O princípio é o mesmo. Quem diz que “ah, mas português não é o mesmo que etiqueta” não está se colocando no lugar de alguém que sempre falou ‘ os livro’ e foi entendido. Como você vai explicar que tudo o que ele fez até então estava errado? Não dá. Porque ele não vai entender, da mesma forma que vocês não vão entender se eu tiver uma síncope nervosa se empilharem pratos ao tirá-los da mesa. Simples assim. E por que isso? Porque é convenção. A língua é viva, mas salvo engano, o que se convenciona chamar de correto é, (acacianamente definindo), con-ven-ção.

Em resumo: o que o livro diz (ou tenta dizer, de forma um tanto desazada, confesso) é que você até pode falar “os livro”, mas essa não é a forma adotada pela gramática “oficial”, e ao não falar ou aprender a forma “oficial”, você será considerado burrão pela maioria das pessoas e sofrerá preconceito por isso. Não tem nenhuma mentira aí: a gente enxerga mesmo como mal educado (ou melhor, instruído) aqueles que não escrevem ou falam corretamente; o que talvez seja mais difícil enxergar é que somente uma convenção definiu o que é certo ou errado (a ABNT também tem uma convenção chatérima para citações de obras, o processo é similar).

 

<abre parênteses> A Mahayana vai chiar um pouquinho aqui, dizendo que o ideal seria que não houvesse restrições ou reprimendas pelo falar diferente, mas aí fico o Marcelo Soares que, ao compartilhar texto sobre o tema disse:

“A propósito, estou lendo o excelente livro “The Information”, do James Gleick. Exatamente no capítulo em que eu estou lendo, ele conta como a língua inglesa se padronizou lentamente a partir do século 16, por conta de necessidades comerciais (os documentos precisavam ser unívocos). Até então, “keep”, “keepe” e talvez até “kyp” eram grafias aceitáveis para o verbo “manter”. Diz Gleick que Newton escreveu em latim principalmente para garantir univocidade. Ou seja: se for olhar pela própria história da gramática, fica claro que ela não é “certa” ou “errada”, e sim convencionada para os fins a serem atingidos” </fecha parênteses>

É importante ressaltar que “nós”, os instruídos, também fazemos isso o tempo todo. Eu DUVI -DE-O-DÓ que alguém aí fale no dia a dia utilizando a forma preconizada pela gramática normativa (brincando no Twitter disse que deveria ser muito engraçado fazer sexo falando como os gramáticos o exigem. Já pensaram? Poizé) ;-)

De tanto leva “frechada” do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
“Táubua” de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furá

(Tiro ao Alvaro, de Adoniran Barbosa)

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ACg4OxVDr_w/youtube]

 

 

 

 

 

 

2. E o tal preconceito linguístico?

Uma das formas de se identificar a origem e educação de uma pessoa é observar a forma como ela fala ou escreve; aparência, modos à mesa, obediência de regras sociais de convivência e vestuário adequado às ocasiões são outros (Sim, quase todo mundo faz isso. Sim, o mundo é horrível, vai lá no S.A.C divino reclamar). Claro que isso é preconceito. Pode até te levar a conclusões erradas, mas eu mesma o tenho, confesso. Se é verdade que não me privo de ouvir os ensinamentos de alguém que fale errado, de outro não posso negar que me seria incômodo ouvir uma pessoa falando errado ao meu lado. Eu sei que não é bonito dizer isso, mas me incomodo. Teria dificuldades em ter uma relação íntima com quem fala errado, não tenho esse desprendimento todo. Admiro quem tenha. Eu não tenho.

No entanto, tenho consciência que essa minha percepção advém de eu relacionar português normatizado com “certo”, e a forma como pessoas educadas falam. Não sei se todo mundo tem essa consciência, principalmente aqueles que não falam de acordo com a gramática normatizada – e é importante que elas o saibam, para não se sentirem diminuídas.

Aí é que a história do preconceito linguístico “pega” um pouco pra mim: dizer que a pessoa é “vítima de preconceito linguístico” pode levar as pessoas a acreditar que todos têm a obrigação de tolerar que se fale errado, fazendo uma analogia com os direitos das minorias (sou negro, mulher, homossexual e mereço tratamento igual ao das pessoas que não pertencem a essa minoria) quando na verdade o que se está dizendo é “você fala de um jeito diferente porque foi educado assim, no seu meio é assim que as frases são formadas; em alguns lugares você pode falar assim e não será censurado, mas  a depender do local em que você falar desse jeito, você será discriminado, então vale a pena entender a gramática normatizada”.

Claro, há autores que defendem aquela ideologia toda de luta de classes na gramática, numa vaibe “bora dizer que nóis escreve como queremo e ‘ces têm que aceitar porque somo do proletariado”, com a qual eu particularmente não concordo, mas entendo o ponto. MAS TENHO QUE RESSALTAR DE NOVO: NÃO É ISSO QUE O LIVRO DIZ.

O que o livro diz ( e diz mal, como explicarei mais adiante) é que a linguagem normatizada é a oficial e a tida como culta, correta, a que te dá status de “pessoa educada”. Pessoas que não falam daquela forma são tidas como mal educadas, ignorantes e que portanto você precisa aprender a “oficial”.

I loves you, Porgy,
Don’t let him take me
Don’t let him handle me
And drive me mad
If you can keep me
I wanna stay here with you forever
I’ve got my man

 

[ I loves you Porgy, uma das músicas mais lindas que conheço, da ópera Porgy and Bess]

3. Os livros não são destinados para crianças

Eles fazem parte de um projeto bacana (ao menos até onde vi) chamado EJA,  voltado para jovens e adultos com pouca escolaridade.

Todo mundo que já teve filho pequeno e tem bom senso sabe: quando ele começa a falar, a maioria dos especialistas diz que o melhor para o desenvolvimento da fala de uma criança é não ficar corrigindo todos os erros dele; há que se repetir assim que possível o termo na forma correta para que aos poucos o conceito seja internalizado. E por quê isso? Porque se o corrigirmos toda hora, ele pode se retrair, pode desistir de tentar falar só pra não correr o risco de errar. Quando se fala de adultos então, deve-se ter tão ou mais cuidado na apresentação do material e do juízo de valor (inclusive de si mesma), que a pessoa fará.

Pensa bem: se você não estudou durante o tempo em que isso seria obrigatório, obviamente isso se deu porque a sua vida não é lá muito fácil. Aí você decide que precisa aprender a ler e escrever melhor e talz, e descobre que você não sabe quase nada. Daí pra largar o curso é um pulo. Isso também deve ser levado em consideração, não acham? Dirão alguns: “é paternalismo”, e eu admito que da forma como autora colocou, soa mesmo como paternalismo. Mas se a forma de exposição do conceito está (a meu ver) inadequada, o conceito em si é correto.

Sob o ponto de vista da psicologia (importantíssimo em questões educacionais, vocês hão de convir) não repudiar a fala daquele que está aprendendo também é muito importante. Nas palavras do Marcos Donizetti:

“ a inserção no mundo da linguagem é a inserção do indivíduo no mundo da cultura e, digo mais, a possibilidade que esse sujeito tem de participar de um mundo subjetivo que, em última instância, o constitui. Quando chamamos norma culta de “correta” e norma coloquial de “incorreta”, não estamos falando do idioma, mas sim de lugares, de posições referenciais do sujeito falante diante de seu mundo. Essas posições são socialmente determinadas. O que ocorre é a apropriação de um saber (o idioma) como ferramenta de diferenciação social. Eu mesmo, nascido de uma família “simples”, que pouco uso faz “dos plural” poderia muito bem internalizar a idéia de que o falar das pessoas que constituem o meu mundo é “incorreto”, daí facilmente pode haver o “salto” que me leva a pensar que meu lugar no mundo é incorreto, ou não tão correto quanto poderia ser se eu fosse de outra classe social. Isso é o tal preconceito, e acho SENSACIONAL que esse mecanismo seja abordado em livros didáticos. Dizer ao sujeito, ainda na fase de aprendizado, que existem maneiras diferentes de se dizer algo, e que cada forma é aplicável a determinado contexto é LINDO. Agora, isso deve ser feito com bastante cuidado. O trecho que eu li do tal livro que causou a polêmica era ruim, citava o preconceito lingüístico en passant e como motivo “único” para o aluno aprender a norma culta. SE (não vi o livro todo) essa for a pegada do livro, temos um problema. Assim como a questão do preconceito deve sim ficar clara para o estudante, os motivos de saber também a norma culta devem ser cristalinos (já que, falando em termos sociais, existe nesse saber questões de inserção, e em termos de comunicação, de poder se comunicar com mais pessoas, entender mais textos etc etc etc). O lance é que a gritaria da imprensa e a histeria dos blogueiros da Veja, que só pude ver hoje, é a mais pura manifestação do tal preconceito”

Acho que está claro né?

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver…

(Preciso me encontrar, de Cartola e Candeia)

 

4. Trecho do livro está mal apresentado

A se levar em conta a velha teoria de que quando muitos alunos repetem a culpa pode ser do professor, talvez tenhamos no próprio texto um exemplo claro de que a autora não cumpriu a missão de levar a mensagem a Garcia e não logrou êxito.

Isso porque, a meu ver, apesar de não ter nenhuma mentira ou erro conceitual ou mesmo novidade, está mal escrito. Eu mesma só consegui compreender os conceitos que a autora expôs depois de extensa explicação de minha amiga linguista Mahayana (sou chique, tão pensando o quê?) e eu me considero uma pessoa razoavelmente instruída. A autora talvez tenha tentado ser sucinta e não foi nada feliz; o assunto pode ser claro naqueles termos que ela colocou para os especialistas, para aqueles que sempre lidaram com a questão, mas para leigos é bem difícil de compreender o que se está sendo dito, a menos que o intuito ideológico.

Pecou também o MEC ao colocar o Ministro para explicar o livro ao invés de um especialista que entendesse não só do que estava falando mas também que soubesse se comunicar com as massas de forma adequada. Não dá pra negar: O Ministro Haddad tentando justificar o livro deixou a emenda muito pior que o soneto.

Mina,
Seus cabelo é “da hora”,
Seu corpão violão,
Meu docinho de coco,
Tá me deixando louco.

(Mamonas Assassinas, sucesso dos anos 90)

 

5. Como esse texto vai ser ensinado na escola?

Essa é a minha maior preocupação. Na verdade, estamos falando só de um capítulo, e não acho sequer que isso será muito aprofundado. O problema que vejo é: se a autora não está conseguindo passar sua mensagem para quem tem instrução e boa vontade (eu e várias pessoas que conheço), como será essa transmissão em um ambiente com várias pessoas de escolaridade mais baixa? Mais: isso será transmitido de forma “pura” ou carregado de “ideologia”? Já há questionamentos sobre a utilização de regra nenhuma no ENEN, o que ao meu ver é um absurdo. Esses os pontos que ao meu ver deveriam ser discutidos e enfrentados, ao invés de se discutir o que todo mundo já sabe: assim como moda é adequação, linguagem também é. Varia, quer queiram quer não :-)

 

There ain’t no mountain high enough
Ain’t no valley low enough
Ain’t no river wide enough
To keep me from getting to you

(Ain’t no mountain high enough, de Marvin Gaye)

 

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