Desarmamento infantil, Laranja Mecânica e Rocas

Por uma infeliz coincidência, a campanha de desarmamento infantil e de adultos está ocorrendo logo após aquele crime horroroso ocorrido no Rio de Janeiro.

(Também – ou ao menos assim espero) por uma coincidência, nesse fim de semana assisti ao filme Laranja Mecânica pela primeira vez na vida, e fiquei impressionada como ele tem (ou poderia ter) relação com esse clima pós crime do Realengo.

<abre parênteses contendo spoiler> pra quem nunca viu o filme, em resumo, trata-se de um cara violento que sai por aí com amigos estuprando, matando e tocando o terror na cidade, até que é preso por um homicídio. Na prisão, submete-se a um “tratamento”  que promete acabar com a violência – ou a capacidade de praticá-la – independente da situação, ainda que seja para se defender. O cara até tem o impulso de reagir, mas não consegue colocá-lo em prática porque sente dores horríveis ao fazê-lo. </fecha parênteses>

Voltando ao desarmamento: com todo respeito aos amigos queridos que pensam o contrário (e há muitos deles) essa campanha não é nada mais nada menos do que um placebo; para mim as pessoas estão querendo se agarrar a qualquer coisa que dê uma (falsa) sensação de que crimes como esse podem não acontecer jamais. Vão, gente, vão acontecer sim. Vão acontecer independente de campanha de desarmamento, porque são situações fora da curva, difíceis de se evitar 100%.  A verdade é que o ser humano tem violência dentro dele e não só algumas pessoas não conseguem controlar isso, como por vezes os sãos não têm condição de antecipar esses espasmos violentos.

A “bondade” e a “inocência” das crianças são mitos difíceis de se contestar: difícil admitir que aquela coisinha lindinha, que faz aqueles barulhinhos fofos possa ter não só vontade como também capacidade de fazer o mal a outra pessoa. Mas elas fazem. E isso se vê tanto entre irmãos (é comum ver irmão mais velho querer bater no irmãozinho que chegou, por exemplo), quanto nas escolas onde as crianças mordem pra expressar algum tipo de descontentamento (ou expressar que algo não vai bem com elas) e, mais velhos, com insetos. Lembro que em determinada idade, adorava colocar formigas num pote e colocar água em cima para vê-las se debater. É eu sei, vou pagar anos de karma e não me orgulho disso; mas eu fazia, tinha plena consciência do que estava fazendo  e conheço várias pessoas com o mesmo comportamento. Isto no entanto não me tornou um serial killer, da mesma forma que videogames não tornam uma pessoa uma serial killer, ou que escrever #forasarney vai derrubar o autor de Marimbondos de Fogo.

Dizem os psicólogos que isso não é incomum, e que lá pelas tantas, se tivemos uma evolução emocional correta, a gente se toca que afogar formigas e outras maldades correlatas não é uma coisa bacana de se fazer. Veja: não é que a gente “fica bonzinho”, é diferente: a gente aprende que isso não é legal. Eu pelo menos, continuo tendo ganas, de vez em quando (tá bom, é mais comum do que vocês imaginam), de socar algumas pessoas na parede 😆 e conheço várias pessoas que sentem a mesma coisa; mas aprendi que isso é moralmente errado – além de me trazer consequências.  Só farei isso (e espero que consiga) numa situação limite.  Obviamente, encontrei formas de lidar com frustração: saio pra andar, escrevo um post malcriado, ouço heavy metal, como um pacote de Amanditas, enfim, arrumo canais para colocar isso pra fora, porque senão essa raiva contida certamente me fará mal. Mas ela está lá, e precisa ser canalizada.

O mesmo quanto às crianças. Ou vocês acham que depois de aprender que morder e matar bichinhos por prazer é errado esse ímpeto de violência não existe mais? Eles viram monges budistas radicais daqueles que não matam nem moscas? Claro que não, né? Claro que o ímpeto tá lá e  AINDA BEM,  porque senão teremos um bando de palermas incapazes de reagir quando necessário – como o cara da Laranja Mecânica, ou o gordinho que finalmente reagiu ao bullying.

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Essa violência precisa sair, até porque imagino que ela seja também uma forma da criança lidar com os medos dela. Tenho a impressão que ao transformarmos em “mal” tudo aquilo que nos aflige, matar monstros e inimigos imaginários faz com que igualmente tenhamos coragem de enfrentar situações que nos afligem na vida real. Então, é importante (para não dizer crucial), que a criança trave suas lutas imaginárias (e mesmo mais reais com disciplina, como é o caso das lutas marciais). 

Faz diferença que ela saia através de armas de fogo, sabres de luz, armas brancas ou uma luta de judô? Desculpe, mas isso não faz sentido. Poderia concordar com vocês se estivéssemos falando de uma criança (como há muitas por aí infelizmente) que tem em seu cotidiano o uso de armas ou morte como solução de conflitos. Se você cresce num ambiente onde o castigo para fazer sei-lá-o-quê é matar a pessoa, ou cresce vendo seu pai matar uma pessoa por uma série de motivos que não o de legítima defesa,  quero acreditar que o seu conceito de motivação para matar alguém seja mais elástico do que pessoas não expostas a isso.

Mas por que imitar uma luta usando arma de fogo tornará a pessoa uma criminosa e luta com uma espada não? É irracional, vocês me desculpem. Não tem o menor sentido. 

O problema não está em sentir ímpeto violento (isso de certa forma e até determinados níveis é saudável), mas em como você o controla; não é sequer (na maioria dos casos) saber que aquilo é errado (convenhamos, o próprio autor do crime do Realengo sabia que estava fazendo algo errado): o problema maior é como fazer com que se atinja o ponto de equilíbrio onde as pessoas não levem determinados impulsos adiante a não ser em circunstâncias extremas.  Lembrem-se: o mesmo impulso (não a motivação) violento que permitiu a ocorrência do crime do Realengo permitiu também a reação do Sargento Márcio Alexandre Alves (sim, o nome dele eu pronuncio)  que salvou muitas vidas.  Como sempre, o maior problema é encontrar o caminho do meio.

Não gente, proibir armas ou proibir crianças de brincar com armas não vai acabar com crimes violentos no mundo. Concordo que atitudes violentas possam criar ambiente propício para a continuidade da violência, mas são situações distintas. Adultos dizem que crianças não distinguem a realidade da fantasia mas aqui me parece o inverso: adultos querem que o mundo vire o paraíso idílico que eles fantasiam para conseguir viver.

Diria até (me arriscando a tomar uma saraivada de impropérios)  que É IMPORTANTE ver como a criança lida com armas e que tipo de “monstros” ela mata durante o desenvolvimento (e como), para podermos avaliar se alguma coisa está saindo do esquadro. Colocar a cabeça na terra não adianta nada, lamento. 

Claro, a gente pode complicar: pode colocar um controle maior de quem entra ou sai das escolas (mas os assaltos a prédios de luxo com segurança fortíssima estão aí para provar que essa segurança pode ser quebrada), pode restringir, controlar e até mesmo proibir a venda de armas de fogo no país inteiro (eu sou contra soluções radicais, porque elas normalmente são placebos);  inobstante tudo isso, se a pessoa quiser, acreditem, ela vai arrumar uma arma pra cometer uma atrocidade.

 

Lembram da Bela Adormecida? Por causa de uma maldição que implicava na sua filha morrer por causa de um ferimento com roca, proibiu-se todas as rocas no reino. A despeito desses esforços, a Bela Adormecida foi igualmente ferida. Por uma roca. Porque ela não conhecia nem a roca nem a maldição. A Bela Adormecida se feriu não por causa da roca, mas por causa da ignorância, sacaram?

O duro da vida é esse: não tem fórmula mágica. Não bastasse isso, ainda tem um agravante: mesmo que você faça tudo dentro do roteiro, do que preconizam como certo, pode não dar certo, porque não há nada 100% seguro. É complicado? Eu acho. Complicado e assustador.

Mas ainda prefiro tentar explicar pro meu fillho que é bacana usar o sabre de luz como um jedi, quando necessário, e que não é legal ir pro lado negro da força. Pode ser que não dê certo – mas ao menos não vou me enganar achando que meu filho não tem violência dentro dele e que todo mundo só tem amor no coração. Aliás, desconfio muito de quem se diga assim, se é que vocês querem saber… lembremo-nos sempre da mãe do Cisne Negro, 😆

Brasil tira as flechas do peito do meu padroeiro

São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro

O @arnobio1969 escreveu  um post falando sobre o Rio de Janeiro, lançando a tag #amorio e na seqüência lembrei de uma declarações de amor mais bonitas que o Rio de Janeiro já recebeu, feita pelo meu ubber querido Ricardo Freire e… eu fiquei comuma inveja brava dos dois.

Então, como eu não vou conseguir fazer nada nem perto dos posts mencionados, faço aqui uma relação de sete dúzia de músicas sobre o Rio de Janeiro. Não sei o que é preciso pra essa situação mudar, não vou dar pitaco (mas faço minhas as palavras do meu querido Walter Hupsel e este texto aqui também); e sei também que fazer um post sobre o que o Rio tem de bom não vai mudar.

Foto gentilmente surrupiada do blog do Riq Freire

Mas a campanha I <3 NY começou numa época em que a cidade estava ao léu, um verdadeiro caos, e a primeira coisa que os americanos fizeram depois do ataque às torres gêmeas foi sair com bandeiras americanas às ruas, como para lembrar de quem eles eram, para ter força de seguir em frente. Acho que é um começo: admitir que temos problemas sérios, que está na hora da sociedade discuti-los e enfrenta-los de forma madura, mas nunca nos esquecendo que o Rio é mesmo uma cidade fantástica, com peculiaridades mil. É hora de enaltecer suas qualidades, não para esquecer o que está errado, mas para lembrarmos o que tem de bonito, peculiar e encantador por trás desse caos.

Por isso, vai aqui a lista das minhas músicas prediletas sobre o Rio de Janeiro, essa cidade que eu adoro e que não canso de enaltecer.

Aproveito pra mandar também um abraço enorme e apertado pra todos os cariocas queridos que moram no meu coração (os quais não vou me arriscar a citar para não correr o risco de cometer injustiças – mas vocês sabem direitinho quem são, né?)

Quanto a mim, não vai ser um pandemoniozinho qualquer que me fará deixar de amar essa cidade e de ir praí muitas e muitas vezes mais. E vou com encrenca ou sem encrenca por aí 🙂

1. Rap da Felicidade

Rio enquadrado pela Rocinha, do meu querido Riq Freire

Lembrada pela Renata Correa e totalmente auto-explicativo. E tenho que colocar funk e rap nesse post porque eles existem, fazem parte do Rio e eu sou pela diversidade. Ademais, o funk de hoje é o samba de ontem. Como bem disse o Gilberto Pavoni comentando esse post aqui, “O lundu continua… só q agora com uma cara de 2 Live Crew pra todo lado. A capoeira agora é um AK-47 na mão q não está mais acorrentada…”.

2. Sou carioca, sou do Rio de Janeiro, Gabriel o Pensador

A música não está aqui porque é uma das minhas preferidas, mas gosto da letra e do tom pesado, fúnebre que, sei lá porque, ela me passa. Acho um bom intróito pra gente se lembrar como está o Rio (e a percepção que temos dele) nos dias de hoje. Gosto também pelo contraste, por lembrar não só o que é bacana, mas o que não é. Importante para começarmos a pensar em toda essa quizumba que tá rolando.

3. Saudades da Guanabara, Moacyr Luz e Aldir Blanc

Eu já gostava do Moacyr Luz, sempre o admirei muito como músico, vê-lo tocar é sempre um privilégio. A admiração cresceu quando fui ao Samba do Trabalhador, bem como quando comecei a interagir com ele no Twitter. E ele é um daqueles cariocas com amor à sua terra: sabe dos defeitos, os critica (como quando, neste Carnaval, escreveu uma crítica dura à organização do Carnaval do Rio).

Hoje, procurando as músicas para esse post,lembrei dessa música, e chorei quando ouvi o trecho que acabou virando o título desse post. Como não se emocionar com uma letra dessas?

Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (…e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

É uma dor delicada né? Ou melhor dizendo, uma dor profunda colocada de forma delicada. Chorei horrores ouvindo-a hoje. E espero mesmo que essas flechas sejam tiradas. De verdade.

4. It´s delovely, Cole Porter

Ah, claro que eu ia colocar um de meus compositores prediletos nesse post. Diz a lenda que Cole Porter compôs “It’s delovely” após ter visto a Baía da Guanabara ao amanhecer chegando de navio à soidisant Cidade Maravilhosa. Há quem diga que não, mas não quero saber: é plausível, é uma história bonita, cai como uma luva para este post e pronto!!

Pra ser sincera, não sei se o Rio de Janeiro combina com Cole Porter. Mas sei que minha querida Constance Escobar vai adorar a menção, ela e a sua casa definitivamente combinam com Cole Porter ?

5. Aquele Abraço, Gilberto Gil

“ E o Rio de Janeiro continua lindo”. Na real? Eu não gosto dessa música, acho meio mala, ela poderia terminar no meio, é muito repetitiva. Sou capaz de apostar que essa música foi criada numa tarde em que tava todo mundo babalu d’aldeia e acharam que a música tava o máximo. Também tenho certeza que essa música encabeça qualquer top 5 músicas de gente cachaçada tocando violão, (parelho com “meu amigo charlie brown”).

Mas é impossível eu ir ao Rio sem começar a cantarolar “ e o Rio de Janeiro continua lindo”, então, ela não poderia faltar nessa lista.

6. Samba do Avião, Tom Jobim

Pra mim é o verdadeiro hino do Rio de Janeiro. Prefiro a versão do João Gilberto (quando cantarolo o Samba do Avião na minha jukebox mental, é sempre a versão dele que me vem à cabeça).

E não vou falar mais nada, porque a música é auto-explicativa, e só quem já chegou ao Rio pelo Santos Dumont e gosta da cidade sabe do que estou falando…

7. Cidade Maravilhosa

Só pra fazer um grand finale. Diz a lenda que muito provavelmente Noel Rosa (um dos meus darlings) compôs essa música (falei um pouco disso aqui)

E você? Quer que o Rio saia dessa enrascada? E o que você gosta de lá?

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P.S. Outros posts meus sobre o Rio de Janeiro aqui: